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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O criminoso homenageado e o juiz esquecido da tragédia da rua das Flores

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O homicídio apaixonou a sociedade portuguesa do final do século XIX e terá inspirado a obra “Tragédia da rua das Flores”, escrita poucos anos depois.

 

 

João Rodrigues da Cunha Aragão Mascarenhas, importante deputado alcacerense do século XIX, e José Cardoso Vieira e Castro, ilustre tribuno com obras publicadas, foram companheiros no Parlamento e, dizem algumas fontes, chegaram a ser amigos. Quis o destino que estivessem depois em lados opostos da lei e que, contra todas as expetativas, o juiz alentejano tivesse coragem e distanciamento suficientes para condenar o antigo colega pelo assassinato da sua mulher, que descobriu ser amante do sobrinho de almeida Garrett. Um crime hediondo que arrebatou a sociedade portuguesa, não fossem os contornos do caso suficientemente escabrosos e os seus intervenientes ricos, jovens, famosos e bem relacionados. Tudo aconteceu na lisboeta rua das Flores, que ficaria conhecida por outras tragédias ficcionais, quem sabe inspiradas nesta, verdadeira e apaixonante.vieira-de-castro-e-esposa.jpg

Anos antes, José Cardoso Vieira e Castro rumara ao Brasil em busca de fortuna. Trouxe de lá a rica e ainda adolescente herdeira Claudina Adelaide Guimarães, com quem casou e foi viver na famigerada artéria. No 2º andar do número 109 recebiam gente das artes e da política, entre os quais Ramalho Ortigão, Camilo Castelo Branco, Levy Maria Jordão e José Maria Almeida Garrett, que haveria de ser a perdição da jovem mulher.

Contam os autos do julgamento que, no dia 7 de maio de 1870, o marido a surpreendeu a escrever uma carta ao amante e que isso o terá feito planear o crime que cometeu dois dias mais tarde. Esta premeditação e o facto de não se ter provado que o réu estava de cabeça perdida com a descoberta do suposto adultério, terão ditado a sua condenação. Teve discernimento para agir de forma natural nos seus afazeres, adquirir um fato de luto e clorofórmio com que planeou envenenar a mulher; e esperar que toda a criadagem estivesse a dormir para então perpetrar o crime. Teve sangue frio suficiente para, frustrada a possibilidade de intoxicação, porque a vítima acordou e debateu-se, a sufocar com a roupa de cama. Depois, voltou a aparentar tranquilidade, quando manteve o cadáver em casa e agiu como se nada se passasse antes de se entregar às autoridades, 30 horas depois.

 Na época, o adultério feminino comprovado e a perda da razão por parte do marido traído, como alertou, e bem, o alcacerense juiz Aragão Mascarenhas, eram atenuantes suficientes para isentar de pena o homicida confesso. O júri, embora impressionado com os argumentos da brilhante defesa e das suas numerosas testemunhas abonatórias, não se deixou convencer. O mesmo aconteceu ao magistrado, que condenou o réu a uma pena de dez anos de degredo para as possessões de África e de cinco anos de prisão efetiva.

José Cardoso Vieira e Castro acabaria por morrer em Luanda, dois anos após o homicídio, sem a fortuna ou a glória que tanto almejou, mas ficando para a história como um dos mais brilhantes parlamentares que o país já elegeu.

Ironia do destino é o criminoso ser homenageado com a atribuição do seu nome a uma rua do concelho onde nasceu e chegou a ser vice-presidente da câmara, Fafe e, ainda recentemente, ser lembrado em tertúlias. Em paralelo, o juiz que o condenou foi totalmente esquecido na sua terra de nascimento, Alcácer do Sal. A fachada da casa onde terá vivido a família do magistrado, no antigo largo Aragão Mascarenhas, ostenta hoje nome de outro alcacerense.

 

 

À margem

A quinta do Ermo, pertenccasa do ermo.jpgente a José Cardoso Vieira de Castro, serviu de guarida ao amigo Camilo Castelo Branco. O escritor andou fugido à justiça depois de Ana Plácido, sua amante, ser acusada de adultério e presa, em junho de 1860. Camilo seria preso em outubro do mesmo ano. Na época, José Cardoso Vieira de Castro defendeu o amigo, mas anos mais tarde cometeria homicídio por não suportar ter sido, ele próprio, alvo da traição,

Mas isso é outra história...

 

 

 

Fontes:

Processo e julgamento de José Cardoso Vieira de Castro no Tribunal do 2º Distrito Criminal de Lisboa – Lisboa - Imprensa Nacional - 1870

http://docplayer.com.br/36095280-Injffisisjiitf-iliiliiiililjll.html

Arquivo Histórico Parlamentar

http://ahpweb.parlamento.pt/Default.aspx

Wikipedia

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Cardoso_Vieira_de_Castro

Maria de Fátima Franco - Cadeia do Limoeiro - Da Punição dos Delinquentes à Formação dos Magistrados - Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais - outubro 2013 

 http://docplayer.com.br/1366048-Cadeia-do-limoeiro-da-punicao-dos-delinquentes-a-formacao-dos-magistrados-outubro-de-2013-direcao-geral-de-reinsercao-e-servicos-prisionais.html

www.google.pt/maps/search

https://casadecamilo.wordpress.com/2012/05/08/a-9-de-maio-de-1870-jose-cardoso-vieira-de-castro-amigo-de-camilo-desde-1852-assassina-a-sua-mulher-claudina-guimaraes-por-meio-de-cloroformio-e-estrangulacao-por-comprovado-ad/

http://domafonsohenriques.blogs.sapo.pt/32052.html

https://caminhosdamemoria.files.wordpress.com/2009/02/bhora21.jpg

http://lisboadeantigamente.blogspot.pt/2016/02/cadeia-do-limoeiro-paco-par-de-sao.html

Arquivo fotográfico de Lisboa - PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LIM/001557; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/FAN/000779; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000647