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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O irmão Gentil esquecido

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Foi um dos mais importantes cirurgiões do seu tempo e a ele se deve o salvamento de muitas vidas. Apesar do inegável valor, José Gentil ficou sempre na sombra do irmão Francisco, mais sociável e diplomático.

Todos conhecem Francisco Gentil, o ilustre médico alcacerense fundador do Instituto Português de Oncologia. José, outro Gentil da mesma criação, foi igualmente importante na medicina, só que nunca fez questão de destacar-se. É quase desconhecido e, embora tenha sido um dos maiores cirurgiões do seu tempo, permaneceu na sombra do irmão mais novo, a quem não se rogaram homenagens.

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José Maria Branco Gentil esteve na vanguarda da medicina e dedicou a vida à sua profissão, no ensino, mas sobretudo no maior serviço de urgência do País, no movimentadíssímo Hospital de São José, em Lisboa. Foi nesse espaço que em 1937 se inaugurou – sem a presença do homenageado - uma lápide com o seu perfil em bronze, como agradecimento por todo o empenho.
Não admira, pois foi ali, pela sua mão enquanto diretor do “banco”, que se abriu uma nova página na cirurgia em Portugal.
Foi assim que a urgência do Hospital de São José, em vez das habituais cirurgias simples executadas por médicos pouco experientes, vulgares até ali, passou a acolher intervenções complexas e de praticamente todas as áreas, levadas a cabo por pessoal muito qualificado, nomeadamente médicos que haviam servido o País na I Grande Guerra e, por isso, estavam familiarizados com medicina de “combate”, com grande competência técnica, versatilidade e capacidade para decisões rápidas e eficazes.

Com isso, salvaram-se muitas vidas, como ficou provado nas estatísticas, que José Gentil foi o primeiro a publicar, em 1924.
Pioneira foi também a total reorganização do serviço, dotado de um anatomo patologista permanente e de um laboratório exclusivo, bem como a elaboração de meticulosos registos de todas as observações e intervenções efetuadas nos doentes, para que se aprendesse com os erros e com os exemplos.

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Ali se fizeram numerosos progressos, como as primeiras transfusões de sangue, um “ato de ousadia e inovação” para a época e em que Lisboa foi uma das primeiras cidades europeias a estrear-se. Tal espelhava a temeridade de um homem que, em vez de ocupar-se a escrever os progressos que ia obtendo, para garantir que mais tarde seria reconhecido, preferia arregaçar as mangas e trabalhar em contacto direto com os doentes e com os numerosos alunos que aprenderam com as suas demonstrações ao vivo.

 

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Em paralelo, devotou muito do seu tempo às “doenças das mulheres”. A enfermaria feminina de Santa Maria Ana transformou-se num “verdadeiro centro de aprendizagem e educação” sobre problemas ginecológicos, dando origem ao primeiro curso desta especialidade na Faculdade de Medicina de Lisboa.
E tudo isto com o mínimo de custos para os cofres públicos, com máxima dedicação, sem qualquer alarde, antes parecendo despreocupado e seco. A sua postura, nobre e honrada, obstinada em prol dos doentes, era, no entanto, pouco dada a diplomacias ou ao cumprimento cego das regras instituídas. Talvez isso explique o seu apagamento e a ingrata demissão do cargo de diretor do banco hospitalar de São José, de que foi alvo em 1930, classificada como uma “página infelicíssima da história” daquela unidade de saúde.


A Alcácer do Sal, José Gentil voltou muitas vezes e até muito próximo do fim da vida (em 1941), havendo ainda quem se lembre de o ver, já alquebrado pela idade, com dificuldade em sair do carro e conduzido por um motorista, passando longas horas na loja do senhor Quita-Quita, junto à sede da Calceteira (Sociedae Filarmónica Amizade Visconde de Alcácer).
Na terra que o viu nascer, o seu nome foi dado a uma estreita rua no bairro do Olival Queimado e a um colégio encerrado no pós 25 de abril de 1974. Honras bem diferentes das dadas ao seu irmão Francisco, que da nome a várias artérias da cidade e de outras localidades daquele concelho.

À margem

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Eram quatro os irmãos filhos de António Maria de Faria Gentil e de Maria Augusta Soares Branco: José Maria Branco Gentil, o mais velho (1870-1941); Maria da Glória Soares Branco Gentil; Francisco Gentil e António Soares Branco Gentil. A medicina corre-lhes nas veias. Tudo terá começado com Francisco Soares Franco, deputado, professor e médico da Real Câmara, bisavô desta prole nascida em Alcácer do Sal. Destes, apenas o filho António não seguiu medicina, tornando-se capitão de fragata. Na descendência do mais ilustre dos irmãos – Francisco - há também variados exemplos de profissionais de saúde do mais alto gabarito.
O mais conhecido é, muito provavelmente, o neto António Gentil Martins, conhecidíssimo cirurgião plástico e pediátrico, celebrizado pelas operações de separação de gémeos siameses, irmão de outro cirurgião, Francisco Gentil da Silva Martins.
O desporto ao mais alto nível também está presente no clã, destacando-se os nomes de Mário Gentil Quina, igualmente neto de Francisco Gentil, médico e velejador medalhado em conjunto com o irmão José Manuel, nos Jogos Olímpicos de Roma (1960). O genro (na imagem), António Augusto da Silva Martins (pai de António Gentil Martins), participou em dois Jogos Olímpicos (Antuérpia, 1920 e Paris, 1924), em provas de tiro e lançamento de disco. A sua carreira desportiva, no entanto, era muito mais vasta: no tiro foi campeão em todas as categoias desportivas que então existiam e “foi recordista na­cional em várias modalidades - peso, disco, dardo, salto em altura, salto em comprimento, salto em largura”. Há até quem o considere o atleta português mais completo de todos os tempos.
Mas isso é outra história...
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Já aqui antes falei da família Branco Gentil
O dia em que mataram o administrador do concelho

A primeira montada do Califa era um burro dado a coices

Marginal Ribeirinha era enorme lixeira

O escultor alcacerense que homenageou os outros mas quis passar incógnito

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Fontes
O professor doutor José Maria Branco Gentil, de Henrique de Vilhena, Instituto de Anatmia; Faculdade de Medicina de Lisboa - 1944.
A biblioteca pessoal de Albert Mac-Bride – História, medicina e organização da informação; dissertação para a obtenção do grau de mestre em Ciências de Documentação e Informação de Maria do Rosário Tavares Diniz Ferreira e Germano Perez Seara; Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras – 2018. Disponível em https://repositorio.ul.pt/handle/10451/33576

https://www.yumpu.com/pt/document/view/15270937/professor-jose-maria-branco-gentil-faculdade-de-medicina-da-

http://www.seleccoes.pt/1/antonio_augusto_da_silva_martins_2427641.html

https://geneall.net/pt

 

Imagens com outras origens
Arquivo Municipal de Alcácer do Sal
José Maria Branco Gentil – jornal O Imparcial - 1926

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt

PT/AMLSB/NEG/000159
José Artur Leitão Barcia
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BAR/000219
Joshua Benoliel
PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/001139
https://toponimialisboa.wordpress.com/2014/06/23/a-rua-do-olimpico-antonio-martins-o-3o-desportista-da-toponimia-de-lisboa/

 

2 comentários

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    CV 02.07.2020

    Muito obrigada!
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