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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

o muito sonhado canal entre o Tejo e o Sado

perfil do canal entre setubal e lisboa.GIF

 

Há mais de 250 anos que se fala das grandes vantagens que poderiam resultar de unir os dois rios. A polémica ideia nunca reuniu consensos, mas chegou a ser dada como inevitável. Para a história, fica outro canal, criado para escoar vinho.

É daquelas obras periodicamente apontadas como certas e iminentes, mas que não saem do papel. Há mais de 250 anos que se anuncia a construção de um arrojado canal para unir os rios Sado e Tejo, analisado por sucessivas comissões, alvo de vários estudos e esboços, versões e percursos diferentes, mas que nunca viu a luz do dia. Cheira que, com a polémica levantada de cada vez que o assunto esteve em cima da mesa, com os impactos ambientais expectáveis e o desenvolvimento de outras vias e transportes, tal projeto não sairá mais da gaveta.

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A proposta mais antiga de que se dá conta é do intendente-geral de Agricultura do Marquês de Pombal, Luiz Ferrari de Mordau (1765). A seu ver, uma tal ligação permitiria o extraiordinário recorde de uma ou duas horas para o trajeto fluvial entre Moita e Setúbal!
Nessa mesma época, os corregedores da Comarca de Setúbal e o comerciante e industrial Jácome Ratton defendiam que a ligação deveria ser entre o rio das Enguias (Tejo) e a ribeira da Marateca (Sado). A esta posição não deveria ser alheio o facto de Ratton explorar as salinas de Alcochete, muito próximas do local onde o canal deveria arrancar…
Aos franceses, quando invadiram o nosso País, igualmente não escapou a potencialidade de unir o Tejo e o Sado, para lhes facilitar o transporte de mercadorias entre o Alentejo e Lisboa. Logo em 1811, também ao governo Português, ainda com a corte no Brasil, pareceu útil tal ideia, tanto para fins militares, como para drenar as terras baldias por onde passaria a ligação… Mas o projeto de Joseph Theresio Michelotti, então em cima da mesa, não foi avante. Nada aconteceu.

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Em 1918, Eduardo Avelino Gomes da Costa – que, simultaneamente, defendia a ligação do Sado ao Guardiana - era o autor do projeto que então se perspetivava como inevitável, embora se estimassem como "enormes" os capitais necessários para o levar por diante. Escusado será dizer que ficou novamente em "águas de bacalhau".

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Recorde-se que, por essa altura, os transportes marítimos eram menos dispendiosos que os rodoviários, até porque escasseavam ainda as estradas dignas desse nome. Logo, este canal era visto como um "grandissímo recurso para o comércio interior" da região e de "incalculável vantagem" para as populações, pois que "para além de outros benefícios", possibilitava entre os portos de Lisboa e Setúbal, "uma comunicação mais segura e pronta do que pelo oceano, sem os riscos deste e os perigos da barra".

Em Setúbal, consoante as opiniões e as épocas, assim se apontava este projeto como extremamente negativo ou, pelo contrário, como uma enorme aspiração, como se refere em 1965, ao reivindicar a inclusão da obra no III Plano de Fomento do Estado, sendo que, em análise, estava um anteprojeto desenvoldido em 1956 por Luís da Fonseca, diretor do Porto de Setúbal.
Até agora, nada feito…

 

 

À margem

A ligação artificial entre cursos de água é um expediente há muito usado pelo homem, nomeadamente para suprir caudais poucvinha.PNGo expressivos com águas de rios onde estes são mais abundantes. Depois, há quem abra canais para escoar vinho. Foi este o caso do grande lavrador José Maria dos Santos, que foi responsável pela plantação, na zona de Rio Frio, da maior vinha do mundo, que produzia 10 a 15 milhões litros de vinho por ano. E como é que este precioso néctar chagava aos consumidores lisboetas? Pois José Maria dos Santos mandou abrir um canal com cerca de 18 quilómetros de extensão entre Rio Frio e o Rio das Enguias (perto de Alcochete), por onde enormes barcas navegavam à sirga carregadas de pipas que, assim, chegavam facilmente ao Tejo e, por esta via, às sedentas tabernas lisboetas. Tamanha proeza valeu-lhe epítetos como Deus Baco, pela forma como contribuiu para a abertura de baiucas de venda de vinho a bochechos por toda a cidade.
Mas isso é outra história...

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As imagens 3 e 4 dizem respeito à construção do Porto de Setúbal.

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Fontes

O Panorama – jornal litterário e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis – Volume III; Typographia da Sociedade; Lisboa - 1839
Disponível em: https://books.google.pt/books?id=c3I AAAAYAAJ&pg=PA163&lpg=PA163&dq=canal+entre+tejo+e+sado&source=bl&ots=x9vH1vFBby&sig=ACfU3U0RI1Cp4vVKfd7u9OwFISrvBVRusA&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjp6OqHi4vlAhUP0uAKHeciCIM4ChDoATAEegQICRAB#v=onepage&q=canal%20entre%20tejo%20e%20sado&f=false

 

Portugal Pittoresco ou Discripção Histórica d‘este Reino, por M. Fernando Denis; Volume III; Typographia de L. C. Da Cunha – 1849. Disponível em: https://books.google.pt/books?id=Ygk-AQAAMAAJ&pg=PA425&lpg=PA425&dq=canal+entre+tejo+e+sado&source=bl&ots=8BbWjSpcK-&sig=ACfU3U3HO5ma8sKyQLlAIEeXQIs7gTjrdA&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjp6OqHi4vlAhUP0uAKHeciCIM4ChDoATABegQICBAB#v=onepage&q=canal%20entre%20tejo%20e%20sado&f=false

 

Arquivo Distrital de Setúbal – Arquivo pessoal de Almeida Carvalho

http://digitarq.adstb.arquivos.pt/details?id=1335743

 

Hemeroteca Digital Municipal de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Gazeta dos Caminhos de Ferro – Transportes e Turismo
Dez 1965

A Capital
Nº2954; 9º ano – 10 nov. 1918

 

Finisterra – Revista Portuguesa de Geografia
https://revistas.rcaap.pt/finisterra

 

Biblioteca Nacional de Portugal
www.purl.pt

Historical, Military and Pictoresque Observations on Portugal; de George Landmann; Volume II; impresso por W. Bulmer and Co.para T. Cadell e W. Davies, Strand; Londres - 1818

 

http://salvador-nautico.blogspot.com/2015/08/canal-sado-tejo.html#!/2015/08/canal-sado-tejo.html

 

http://issuu.com/portofsetubal/docs/livro_a_historia_do_porto_de_setubal

 

O Programa de Obras Públicas para o Território de Portugal Continental, 1789-1809 Intenção Política e Razão Técnica – o Porto do Douro e a Cidade do Porto; Tese de Doutoramento em Arquitectura, na especialidade de Teoria e História de Arquitectura de Carlos Henrique de Moura Rodrigues Martins; Universidade de Coimbra – maio 2014
Disponível em: https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/25713

 

O morgado da canita, de Conceição Andrade Martins; Instituto de Ciências Sociais - Universidade de Lisboa

Disponível em: https://www.academia.edu/1524452/José_Maria_dos_Santos_O_Morgado_da_Canita

 

Agricultura, ambiente e desenvolvimento em territórios periurbanos – Um desafio para todos – Estudo empírico nas freguesias de Marateca e Poceirão no município de Palmela, de Esmeralda Pinto Correia; Faculdade de Ciências Sociais e Humanas; Universidade Nova de Lisboa - 2012

Disponível em: https://run.unl.pt/handle/10362/8786

 

https://bibliotecas.defesa.pt/

Perfil do canal [ [de navegaçaõ entre Setubal, e Lisboa] : para se verem as proporções que deve ter, mesmo nas grandes alturas da excavação / Joze Théresio Michelotty Major Eng ; o segundo Tenente António José da Silveira, o desenhou.

Carta da região compreendida entre os rios Tejo e Sado.

 

https://www.portodesetubal.pt/museu/

Fotografia: Cabecinha; Sartoris

 

https://www.portodesetubal.pt/museu/index.php/cartografia/546—planta-ante-projecto-do-canal.html

http://www.rio-frio.eu/pt/historia