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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O “pai” da literatura policial e a sua vida rocambolesca

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Escrevia desenfreada e compulsivamente, como se a sua existência dependesse disso. Conquistou a paixão do público, mas a doença, a vida excêntrica que levou, cheia de episódios caricatos e delírios de grandeza, arrastaram-no para a miséria, que minou os seus derradeiros anos.

 

Tinha uma mente tão cheia de ideias, quanto errática e incompetente a gerir qualquer projeto de sucesso. Um carácter rebelde e narcisista, responsável por uma vida aquém das capacidades, mas com desvarios de superioridade e ostentação. Possuía um cérebro excecionalmente hábil na criação de personagens que resumem o pior do espírito humano e, ao mesmo tempo, capaz de ir à mais negra e perversa das realidades, convertendo-a em páginas e páginas que o público lia sofregamente. Assim era Francisco Leite Bastos, o percursor da literatura policial em Portugal, ainda antes de Sir Arthur Conan Doyle ou de Agatha Christie.

Quis o acaso que nascesse em 1841, ano em que Edgar Allan Poe levou à estampa aquele que é considerado o primeiro livro policial: Os assassinatos da rua Morgue. E carregou essa coincidência como um destino traçado que lhe haveria de trazer fama e glória. Talvez por isso, não se deteve nos estudos, nem nos expedientes para enriquecer que inaugurou na adolescência, quer fossem o fabrico de bolas de carvão, a produção de Sant’Antoninhos de barro ou de palitos para a indústria de fósforos.

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Na verdade, o êxito que a sua pena granjeou, praticamente desde o debute, inebriou-o e deu-lhe confiança para, aos 22 anos, se despedir de um entediante emprego público e tentar viver exclusivamente da escrita. Seduzia-o a ideia de adaptar textos para teatro e o contacto com atrizes e coristas.

Compensou a falta de formação literária com uma imensa intuição e arguto sentido de observação, começando a escrever desenfreadamente. Não importava o tema ou o formato: reportagem, artigos para revistas e jornais – nomeadamente Diário de Notícias e revista Occidente - drama, comédia ou crónica de costumes. Chegava a levar por diante três trabalhos em simultâneo, nem sempre da forma mais cuidada - que a pressa é inimiga da perfeição - mas escrevendo como se disso dependesse a sua existência.

E dependia mesmo, porque rapidamente malbaratou as curtas heranças dos pais, com extravagantes atividades, como prestamista, empresário de carroças de carga ou editor dos fascículos semanais Biblioteca Nacional – este menos mal, não fosse o fausto despropositado do escritório que montou.

Então, escreveu ainda mais: As tragédias de Lisboa (obra de fôlego com quatro volumes); Sapatos de defunto; O homem das meias de seda; Os trapeiros de Lisboa; A calúnia, O último carrasco

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Entre muitos outros, os que mais notoriedade lhe trouxeram, porque inspirados em facínoras reais que a sociedade ainda recordava com temor: O crime de Mattos Lobo, sobre o último criminoso a morrer enforcado em Lisboa, numa agonia cheia de peripécias; Os crimes de Diogo Alves, o primeiro serial killer português, que assaltava e atirava as suas vítimas do alto do Aqueduto das Águas Livres; O incendiário da Patriarcal, história do ladrão pirómano Alexandre Franco Vicente e, ainda, O crime do Corregedor, que por ciúmes da sua freira amada mandou para a morte um homem inocente.

Estas narrativas, algumas das quais adaptadas ao teatro e assiduamente reeditadas com grande sucesso, foram verdadeiramente inovadoras para a época e transformaram Francisco Leite Bastos no autor da moda, em simultâneo reconhecido por consagrados (poucos), como António Feliciano de Castilho.

A sua sequela de Rocambole, novela caracterizada pela sucessão interminável de episódios inusitados – origem do termo rocambolesco –, criada pelo visconde Ponson du Terrail, é vista como a melhor alguma vez escrita, sendo que foram muitos os escritores a tentar concluir a história inacabada, mas só Leite Bastos a conseguir passar-se pelo autor original.

Mas, estes triunfos e o casamento com Amélia Rosa Vidal não lhe trouxeram a estabilidade, ou a saúde. Trabalhava muitíssimo, deixando sugar a sua fértil imaginação pela voracidade do mercado, que não lhe pagava o suficiente para viver.

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Para o folclore de Lisboa ficaram as suas excentricidades: o caricato espetáculo do escritor a passear-se numa periclitante carroça adornada como se de um coche de luxo se tratasse e puxada por um esquálido cavalo, provocando o gozo dos passantes; a sua fraca figura bamboleando-se rua acima, rua abaixo, sempre com pressa, a pé, já depois da estranha viatura e do amado equídeo terem desaparecido.

Para os amigos ficou sobretudo o enorme sofrimento dos últimos anos da sua curta vida, minada pela tuberculose e finda no dia 5 de dezembro de 1886, no nº 21 da rua Bica de Duarte Belo.

Tinha finalmente encontrado a paz, sem ter sabido que seria reconhecido como o “pai” da ficção policial em Portugal, algo que, certamente, agradaria às suas pretensões de grandeza e compensaria, por fim, tanto esforço e criatividade.

 

À margem

Francisco Leite Bastos era primo de Gervásio Lobato, também ele jornalista, escritor, tradutor e dramaturgo.

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Foi em casa deste que se refugiou quando, ainda adolescente, fugiu da escola e do lar paterno. Eram amigos próximos e muitas vezes partilharam as páginas das mesmas publicações, mas a vida de Gervásio foi bem mais serena. Concluiu estudos, foi professor e foi também bastante produtivo do ponto de vista literário. A sua obra mais conhecida, Lisboa em Camisa, retrata a vida da Capital em pequenos quadros com um misto de realismo e humor, como se as suas personagens tivessem sido surpreendidas na intimidade, verdadeiramente em “mangas de camisa”. Por coincidência, Gervásio Lobato, a quem se deve a biografia resumida do primo e a conclusão de algumas das obras que aquele deixou inacabadas, nasceu nove anos após Francisco Leite Bastos e morreu também exatamente nove anos depois deste.

Mas isso é outra história...

 

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Revista Occidente

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/Ocidente/1886/N287/N287_master/N287.pdf

Imagens

http://livreiro-monasticon.blogspot.pt/2014/09/

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www.wikipedia.org.com

 

Fontes

Hemeroteca Digital

Revista Occidente

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/Ocidente/1886/N287/N287_master/N287.pdf

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/Ocidente/1886/N288/N288_master/N288.pdf

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/Ocidente/1887/N291/N291_master/N291.pdf

Ilustração Portuguesa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/OBRAS/IlustracaoPort/IlustracaoPortuguesa.htm

AIlustPort1886DezN23

 

Biblioteca Nacional Digital

Diário Ilustrado

http://purl.pt/14328

j-1244-g_1880-10-16_0000_1-4_t24-C-R0150

j-1244-g_1883-05-10_0000_1-4_t24-C-R0150

j-1244-g_1886-12-06_0000_1-4_t24-C-R0150

j-1244-g_1886-12-07_0000_1-4_t24-C-R0150

 

Registos paroquiais portugueses para genealogia

www.tombo.pt

http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4816625

 

Leite Bastos, O crime de Mattos Lobo, Editora livros do brasil, Copyright © Livros do Brasil, 2004

http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:HZFb8SR83CYJ:www.visionvox.com.br/biblioteca/l/Leite_Bastos_o_Crime_de_Mattos_Lobo.rtf+&cd=1&hl=pt-PT&ct=clnk&gl=pt

 

https://archive.org/stream/portugaldicciona04pere/portugaldicciona04pere_djvu.txt

 

https://slidex.tips/download/criminosos-popularizados-na-narrativa-de-divulgaao-de-1838-aos-alvores-da-republ

 

https://run.unl.pt/bitstream/10362/17079/1/TeseDoutoramento_GraçaPacheco_Anexos.pdf

 

https://www.bertrand.pt/livro/o-crime-de-mattos-lobo-leite-bastos/86293

 

https://crimesdebolso.wordpress.com/tag/leite-barros/

 

https://www.infopedia.pt/$francisco-leite-bastos

 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Gervásio_Lobato

 

 

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