O pintor Simão Rodrigues e o caso da criança monstruosa

Este alcacerense nascido em 1560 aprendeu em Roma com os melhores do seu tempo e tem obras grandiosas espalhadas por todo o País. Curioso é que, a juntar a todas estas representações divinas, nos tenha deixado o estranho retrato de uma criança monstruosa nascida na Mouraria e que assim ficou ligada Codex Casanatense, livro raro e especialmente intrigante.

Simão Rodrigues foi um dos mais reconhecidos pintores da sua época e é mais um alcacerense ilustre praticamente desconhecido na sua terra. Pintou sobretudo temas religiosos, certamente centenas de imagens da Virgem, de Jesus, de diversos santos e outras figuras importantes para a fé católica.
Curioso é que, a juntar a todas estas representações divinas, nos tenha legado o estranho retrato de uma criança monstruosa nascida na Mouraria, em 1628, fenómeno visto como premonitório de grande desgraças e sinal do infortúnio que se tinha abatido sobre este reino, então governado por espanhóis. O desenho foi encontrado no misterioso Codex Casanatense, um livro único e muito famoso que poderá ter pertencido ao próprio Simão Rodrigues.
O artista nasceu em Alcácer do Sal, corria o ano de 1560, filho de um boticário local. Cedo se instalou em Lisboa e, já aos 23 anos, tinha oficina montada na freguesia do Socorro. Tem uma muito vasta e elogiada produção, tanto por mão própria, como elaborada por elementos da sua “casa” e inúmeros discípulos. Veio a morrer em 1629, aos 69 anos, idade bastante avançada para a época.

Ganhou nome e teve o privilégio de estar em Roma numa época de grande vitalidade e produção de pintura, aprendendo assim com os melhores exemplos do seu tempo, “bebendo” as inovações estéticas que então se experimentavam, influência que denota em pormenores dos numerosos trabalhos que desenvolveu depois no nosso País.
A atestar a sua importância estão algumas pinturas que lhe foram encomendadas e que podem ainda ser apreciadas, quer nas igrejas para as quais foram criadas, quer em museus, com o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu Nacional Grão Vasco, o Museu Nacional de Machado de Castro ou o Museu Nogueira da Silva.
Era considerado “pintor de alto estatuto”, e, tal como os mestres italianos lhe serviram de exemplo, assim Simão Rodrigues foi imitado por outros artistas portugueses de menor nome.

Estava já no final da sua longa e ativa vida quando aparece ligado ao importantíssimo códice atualmente à guarda da Biblioteca Casanatense de Roma.
Trata-se de um conjunto de 75 preciosas iluminuras sobre os povos orientais, os usos e costumes, aparência e vestuário, a fauna e a flora, bem como a presença dos portugueses na África e na Ásia, com legendas na nossa língua (na imagem). É uma rara fonte de informação iconográfica sobre essas gentes de longínquas paragens, desconhecidas da maioria, mas que despertavam enorme curiosidade entre os europeus.
O seu autor terá sido um indiano e é ainda hoje um dos mais importantes testemunhos das culturas distantes com que nos cruzámos ao longo da nossa expansão marítima. Apesar de datar do século XVI, só foi dado a conhecer em 1956.

Ora, no meio destas imagens exóticas surge o retrato de um menino nascido em Lisboa com graves deformações e que viveu apenas poucos dias. Esta criança, tida como sobrenatural, causou enorme comoção na época, daí se ter solicitado a alguém habilitado para tal que fizesse o desenho da sua aparência.
O pintor encarregue de tal trabalho foi precisamente o já idoso Simão Rodrigues.
O bebé, de pai estrangeiro e mãe nacional, nascido em 10 de abril de 1628, tinha a cabeça e membros deformados, apresentava-se coberto de duras escamas e, no peito, era visível uma cruz vermelha, cor que também se via nos seus olhos.
Foi rejeitado pelos pais, que o deram a criar a umas amas da rua Suja, tendo morrido e sido enterrado cinco dias após o nascimento. Foi depois desenterrado por ordem do arcebispo D. Afonso Furtado de Mendonça, para se registar os sinais que tanto alarmaram quem o viu.
O desenho, feito pelo pintor de renome, foi depois incluído no referido códice, como mais uma bizarria a acrescentar às outras ali narradas, pelo que se pensa que seria o próprio Simão Rodrigues o possuidor do valioso livro, que também serviu de inspiração para representações do oriente então pintadas em alguns locais.
Produziu igualmente um pequeno quadro destinado a ser visto pelo rei, na corte de Madrid, para que tivesse conhecimento da criança prodígio. O caso foi tão badalado, que outras reproduções foram feitas e o nascimento de semelhantes “monstros” e desgraças foi relatado naquele ano, em todo o País.
E é assim que este alcacerense, reconhecido pintor maneirista, um dos mais apreciados do seu tempo, fica ligado a esta criança prodigiosa, vista como anúncio do fim de uma era: a do domínio filipino em Portugal.
À margem

Ao longo da sua vida, muitas foram as importantes pinturas encomendadas a Simão Rodrigues, casos dos grandes painéis da Igreja do Carmo ou do grandioso retábulo da capela-mor da igreja do poderoso mosteiro também coimbrão de Santa Cruz, que desenvolveu a partir de 1605, com Domingos Vieira Serrão. Este seu trabalho, aliás, tanto terá agradado, que, sete anos depois, fica encarregue, com o mesmo companheiro, de pintar o retábulo da Capela de São Miguel, do Paço da Reitoria da Universidade de Coimbra, que se queria ainda mais rico e elaborado do que o anterior.
Outra obra da sua autoria é o painel com destino à igreja da Companhia de Jesus de Luanda, em Angola, tal como uma série de pinturas para a Igreja de Santo Estêvão de Alfama, para a de São Domingos, de Elvas, a Sé de Leiria, as igrejas de Marvila e da Misericórdia de Santarém.
De sua arte, também um conjunto de pinturas sobre a vida de Jerónimo de Estridão, para o Mosteiro dos Jerónimos; retábulos para a Sé de Portalegre e a Sé Velha de Coimbra, os mosteiros do Carmo de Vidigueira e de Lisboa, o mosteiro dominicano de Vila Real, o cisterciense de Alcobaça, ou o jesuíta de São Roque, para onde desenvolveu, com André Reinoso, 20 telas com passos da vida e milagres do beato Francisco Xavier, antecipando a sua canonização, que ocorreu pouco depois.
Este é, diga-se, “unanimemente reconhecido pela história da arte portuguesa”, como “uma das melhores obras, senão a melhor, de pintura religiosa do século XVII, pela qualidade do desenho, pelo exotismo das composições, pelo forte gosto naturalista que exala da maioria das cenas e pelo conhecimento que revela ter das vivências, usos e costumes asiáticos, a denunciar boas fontes de inspiração”, como o códice atrás referido.
Em Alcácer do Sal, sua terra natal, Simão Rodrigues é discretamente homenageado na toponímia do bairro do Olival da Boa Vista e há a registar apenas uma obra presente: um quadro pertencente ao convento franciscano de Santo António, de Alcácer do Sal, que se encontra exposto na igreja de Santa Maria do Castelo.
E, quem seria o misterioso pintor cuja identidade se desconhece, que chegou a ter a sua oficina na Igreja do Espírito Santo, atual Museu Municipal Pedro Nunes, na mesma cidade?
Isso é, certamente, outra história...
Fontes
Vítor Serrão, Simão Rodrigues em Roma - A Influência do Oratorio del Crocifisso na Pintura Maneirista Portuguesa, in PROMONTORIA 2002 / 2003, Faculdade de Letras de Lisboa. Aqui: https://share.google/uBj9CUEgmgwT2Qf9n
Vítor Serrão, Pintor Simão Rodrigues, a Posse do Codex Casanatense em 1628, Fortuna, Atribulações e Influências Artísticas, in ANAIS DE HISTÓRIA DE ALÉM-MAR, Vol. XIII, 2012, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Aqui: https://revistas.rcaap.pt/aham/article/view/37161
Antiguidades e Obras de Arte, Pinturas e Joias, Cabral Moncada Leilões, citando Vítor Serrão, Quatro Telas Desconhecidas do Pintor Maneirista Simão Rodrigues, Disponível aqui: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://catalogos.cdn.cml.pt/pdfs/2009/leilao106.pdf
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sim%C3%A3o_Rodrigues_(pintor)
Imagens
ANAIS DE HISTÓRIA DE ALÉM-MAR, Vol. XIII, 2012, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%B3dice_Casanatense#/media/Ficheiro:Codice_Casanatense_War_Elephant.jpg
…………………..
Obras de Simão Rodrigues aqui representadas:
O Diabo troca os livros bons pelos livros maus a São Jerónimo, pintura de Simão Rodrigues, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa
Partida de São Jerónimo para o Oriente (século XVI), pintura de Simão Rodrigues, no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.
Nascimento de São João Baptista (1590-1610), pintura de Simão Rodrigues, no MNAA, em Lisboa
Martírio de São João Baptista (c. 1590-1610), pintura de Simão Rodrigues, no MNAA, em Lisboa
