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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O polémico padre de Santiago

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Piadas e ditos picantes, participação em festas pouco recomendáveis e, no geral, uma atitude desbragada e desbocada são algumas das críticas ao padre alcacerense que encheram páginas de jornal há cerca de 125 anos.


Alcácer do Sal teve, no final do século XIX, um padre que deu muito que falar pelos seus costumes e modos, eventualmente considerados mais «livres» que o esperado para a época e em alguém da sua posição. Mas, os padres são apenas homens, embora embuídos de uma missão, e também se sabe que as terras pequenas como esta são pródigas em mexericos. Para a posteridade ficaram as críticas nos jornais da altura, especialmente sobre o sentido de humor e a linguagem usada por António Inácio de Carvalho e Silva, o vigário que gostava de cantar o fado.
A troca de «mimos» terá começado quando o padre mostrou desagrado pela forma como o diretor do jornal, Leopoldo Mera, se comportou numa missa, tendo «propalado por toda a parte» o seu descontentamento. O jornalista não se fez rogado e dedicou vários artigos a contar alguns feitos do prior, «deveras cómico», que dizia: «não honra a terra que o viu nascer e muito menos a religião que professa».
Apontava-lhe o dedo por ser vaidoso e caprichoso, mas ilustrava sobretudo com episódios nos quais António Inácio Carvalho e Silva terá mostrado a sua faceta mais desbragada, como aquela ocasião em que, durante um jantar para solenizar um batizado, se lançou em "remoques ao belo sexo por causa de uma banana", ou aquela outra, num estabelecimento comercial da então vila, onde terá dito que, se Deus quisesse cera, então que fosse trabalhar, que assim fazia ele. Recordou também uma homilia em que o padre, como que a preparar os paroquianos para o que ia dizer, terá começado o sermão anunciando: "preparem-se que lá vai estopa!".
Mas, não era só na linguagem do padre que o diretor do jornal punha defeitos. Segundo revelava, António Inácio não tinha pejo de esquecer o seu augusto ministério e "descer às camadas mais inferiores, mesclando-se e confundindo-se, não lhe faltando os esgares afadistados e os ditos picantes mais próprios de um frequentados das vielas de Alfama", nomeadamente, enquanto paroquiava em São Romão do Sado, e permitia-se «a liberdade de bater o fado de chulipa*» com os trabalhadores e criados de lavoura“, na Herdade de Porto Carro.
Enfim, «um pagode», considerava, não sem deixar de denunciar que o padre alegadamente vendia «pedaços de jornal por bulas da Santa Cruzada», isto é, recebia dinheiro em troca de perdoar os pecados dos seus «incautos“ paroquianos, fornecendo-lhes documentos que não eram as indulgências que eles pensavam ter pago, mas que aceitavam como tal, muito provavelmente por não saberem ler.
Entre tantas censuras, no entanto, o diretor do jornal reconhecia «fino tato» e «poderoso cérebro» no padre, bem como «inúmeros predicados, que longe de o tornarem odioso, pelo contrário», o tornavam «simpático, venerando e – hesitava - não sei se popular!». Bem, pelo menos não entre os outros padres do concelho, aos quais teria «movido guerra surda».
Será que entre as alegadas vítimas desta contenda estaria o conhecido Francisco Matos Galamba**, que por esta altura era pároco de Santa Maria do Castelo e certamente muito terá privado com o companheiro de missão?


À margem

António Inácio de Carvalho e Silva, o padre que tanto exasperava o diretor do então jornal Voz do Sado, era filho da alcacerense Faustina Maria, com um professor de instrução primária e procurador de causas nascido em Moura. Veio ao mundo em Alcácer (Santa Maria do Castelo), em 27 de abril de 1851. Seria nomeado vigário da Vara de Alcácer do Sal e prior de Santiago por volta de 1893.
Antes, tinha feito a sua instrução no Seminário de Évora. Do processo de admissão destinado a tomar a prima tonsura e os quatro graus de ordens menores consta a inquirição de testemunhas, «pessoas antigas, desinteressadas e idôneas» da vila, bem como colegas do seminário, para atestar do bom comportamento moral e religioso do proponente e de toda a sua família, Unanimemente, asseguraram a boa indole pública e privada.

Anos depois, Leopoldo Mera, diretor do Jornal Voz do Sado não lhe poupa críticas.

Mas, o que fazia em em 1895-96 em Alcácer do Sal o senhor Leopoldo Mera, proprietário e responsável por vários jornais em diferentes locais do País, para além de professor, tendo publicado um livro sobre João de Deus. Já após a implantação da República, voltamos a encontrá-lo, oferecendo-se descaradamente ao então presidente Bernardino Machado para um qualquer cargo em que aquele entendesse poder encaixar no seu perfil, de «administrador de concelho, a comissário de polícia, secretário de liceu, conservador», «oficial de bibloteca» ou até, «consul». Argumentava que tal lhe era devido pela sua dedicação à causa republicana e por ter uma família grande para alimentar. Ontem como hoje, os argumentos dos correlegionários políticos parecem surtir efeito nos governantes...Não sabemos se ocupou outra das posições pretendidas antes, mas em 1924 acabaria por ser nomeado administrador do concelho de Salvaterra de Magos.
Mas isso é outra história...

 

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* Segundo consegui perceber, a expressão diz respeito a acompanhar o fado com o batimento dos pés no chão, como no flamenco.

** Francisco Matos Galamba deixou obra feita em Alcácer do Sal, onde desempenhou vários cargos religiosos, políticos e culturais, até à sua morte, em 1913. A ele voltaremos com mais dedicação.

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Fontes

Biblioteca Nacional de Portugal
Jornal Voz do Sado
20 jul. 1895
30 no. 1895
30 abr. 1896
10 mai. 1896


Arquivo Distrital de Évora

Processo de habilitação “de genere” de António Inácio de Carvalho e Silva

PT/ADEVR/FE/DIO/CEEVR/A/012/017270001- 017270180
Cota atual
Mç. nº 203, Proc. nº 1727


Arquivo Distrital de Setúbal

Paróquia de Santa Maria do Castelo
Registos de Batismos
Sistematizados em Registos Paroquiais Portugueses para Genealogia
www.tombo.pt

Biblioteca Nacional de Portugal em linha
www.purl.pt
O futuro de Alcanena

Arquivo Nacional Torre do Tombo
Ministério do Interior
Direção-geral de Administração Política e Civil /Direção-geral da Administração Local
PT/TT/MI-DGAPC/1/1924/65

Fundação Mário Soares
http://casacomum.org/
DBG-Documentos Bernardino Machado - Correspondência

 

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