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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O primeiro figurinista português e o incêndio que o arruinou

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Carlos Cohen viveu entre o brilho e a magnificência que a sua arte emprestava às personagens que vestia. O trágico incêndio da rua da Betesga foi o princípio do fim do primeiro figurinista português.

 

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O último mês de 1886 ficou marcado pelo tenebroso incêndio que destruiu um prédio de quatro pisos na baixa de Lisboa e matou várias pessoas. Quem haveria de imaginar que o sinistro mudaria para sempre também a vida do mais requisitado “alfayate costumier” da cidade, o primeiro figurinista português, responsável por ter revolucionado a forma como os atores se apresentam perante o público?! Depois de uma vida entre brilho e plumas, Carlos Cohen morreria na miséria, cheio de dívidas, numa pobre cama de hospital. Tinha-se quebrado a magnificência aparente que sempre garantira em palco.

A queda do artista não foi imediata. Trinta anos mediaram entre o trágico fogo e a morte, por congestão cerebral - disse a imprensa da época. Mas a sua vida nunca seria a mesma após as chamas terem arruinado a sua casa, o seu atelier e todo o vasto guarda-roupa que ali mantinha, ocupando todo o primeiro piso, com sete janelas para a rua dos Correeiros e quatro para a da Betesga. Ali, as paredes estavam “guarnecidas por cabides” nos quais estavam penduradas vestimentas ligeiras, “objetos de cartonagem e outros artigos de fácil e rápida combustão”, que contribuíram para a veloz propagação do incêndio, tanto mais que esta espécie de armazém onde os variados teatros podiam alugar vestes para as suas encenações – uma novidade na época – estava excecionalmente cheio, com os já prontos “fatos para o drama Luiz XI”, que ia à cena “nos Recreios” e ainda para “peças da Trindade e outras casas de espetáculos”, que Carlos Cohen desenhava e construía com as costureiras que para ele trabalhavam.

Foi o princípio do fim. Pois que, por inércia ou trauma, o conhecido figurinista nunca mais voltou ao fulgor de outros tempos, chegando, no fim da vida, a andar pelas ruas “com o fato cheio de nódoas, desmazeladamente trajando, com um cache-nez em volta do pescoço para não se dar pela ausência do colarinho”, algo impensável anos antes, num homem garboso e “vestindo sempre com máxima distinção”, como os seus amigos preferem dele lembrar-se.

Longe iam os tempos em que dava cartas de elegância e bom gosto.

Essas qualidades foram o seu triunfo. Isso e a forma como “casava os tecidos”, indo ao encontro da veracidade histórica das personagens que vestia, nas formas, nas cores e nos cortes das indumentárias, num rigor em que foi percursor e que fez escola no meio teatral português. Assim foi especialmente quando ficou responsável pelos figurinos do grupo Rosas & Brazão, que explorou o Teatro Nacional D. Maria II durante duas décadas. “O investimento estético nos espetáculos era reconhecido até pelos mais críticos, sendo pautado pelo estudo a que os dramas históricos obrigavam, pelo requinte da decoração de cena e pela riqueza dos materiais”, instituindo-se “a pintura de novos cenários” e “a confeção de um guarda-roupa para cada novo espetáculo (diferente, portanto, do que acontecia antes)”.

O apreço do “patrão” Eduardo Brazão por Carlos Cohen seria tal que este até ficou sepultado no jazigo da sua família.

cohen publicar3.pngE a sua arte foi reconhecida no seu tempo, nomeadamente nos escritos de Rafael Bordalo Pinheiros e de outros virtuosos. É reconhecida ainda hoje, com indumentárias de sua autoria em destaque nos museus do Trajo e do Teatro. No primeiro caso, nomeadamente, um magnífico vestido em veludo vermelho cinzelado para a peça “A Princesa de Bagdad”, de Alexandre Dumas, levada à cena pela Companhia Rosas & Brasão, em 1881, e que é o trajo de cena mais antigo existente naquele acervo. No segundo caso, diversos fatos “executados em materiais e tecidos de grande qualidade, então propositadamente importados das grandes capitais europeias”.

Carlos Cohen criou beleza e encanto para numerosos espetáculos; da ópera, à comédia; do burlesco à revista, das mágicas* ao drama, numa montanha russa de emoções e sumptuosidade que, tal como na vida, se desvanecem quando corre o pano.

 

À Margem

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O incêndio que deflagrou na manhã de 29 de dezembro de 1886 matou filha, mulher e sobrinha, bem como a criada da casa, do comendador António Maria Freire Pimentel Brandão e ainda uma idosa entrevada que vivia nas águas furtadas do edifício. Foi Carlos Cohen quem deu o alarme, e foi ele também o último sobrevivente a sair do prédio, e à força, porque se recusou a abandonar o guarda-roupa fruto do seu trabalho. Destruídos ficaram também o colégio Victor Hugo, de Cândida de Mello Amaral, que ocupava o 2º piso, e diversas lojas. O sinistro, que reacendeu a polémica sobre a proibição em Lisboa do toque a rebate em caso de incêndio, fez do bombeiro nº 55, António Ignácio da Silva, o herói do momento. Ferido enquanto tentava salvar a família Brandão, foi hospitalizado e o seu estado de saúde seguido pela imprensa durante vários dias. A câmara da Capital chegou a aprovar um louvor ao “soldado da paz” e uma pensão para o caso deste ficar impossibilitado de trabalhar. Não sabemos se chegaria a recuperar completamente, sabemos sim que a sua mulher também tinha sido condecorada, anos antes com uma medalha de prata, precisamente por ter salvo duas crianças das chamas.

Mas isso é outra história…

 

* Uma mágica é um “gênero dramático-musical largamente praticado no Brasil e em Portugal, do início do século XIX ao início do século XX”. É descrito como “aparatosa”, “deslumbrantes”, “espirituosas”, contendo uma “ofuscante” apoteose. É frequente os seus títulos apresentarem referências a seres e elementos fantásticos.

 

Fontes

Biblioteca Nacional Digital

www.purl.pt

Diário Illustrado

15º ano, nº4:916 – 30 dez. 1886

15º ano, nº4:917 – 31 dez. 1886

16º ano, nº4:918 – 1 jan. 1887

16º ano, nº4:918 – 2 jan. 1887

36º ano, nº12:052 – 20 out. 1906

 

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

O Occidente

10º ano, voluma X, nº289

O Bombeiro Portuguez

VII ano, nº5 – 1 jun.1883

 

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/

Eduardo Portugal

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/EDP/000223

…..

https://www.academia.edu/3407985/As_Mágicas_e_a_Circularidade_de_Gêneros_Musicais_no_Século_XIX

As Mágicas e a circularidade de gêneros musicais no século XIX, Vanda Bellard Freire - Palestra apresentada na Casa de Rui Barbosa, agosto de 2008 /Colóquio Música e História

 

https://archive.org/stream/diccionariodothe00sousuoft/diccionariodothe00sousuoft_djvu.txt

 

Diccionario do Theatro Portuguez, António Sousa Bastos, Imprensa Libânio da Silva, Lisboa, 1908

 

http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=175743&EntSep=5#gotoPosition

 

http://www.museudoteatroedanca.gov.pt/pt-PT/coleccoes/Trajos/PrintVersionContentDetail.aspx

http://cvc.instituto-camoes.pt/teatro-em-portugal-instituicoes/rosas-a-brazao-dp22.html#.WrpGDcuWwbo

http://manuel-bernardinomachado.blogspot.pt/2012/12/recordar-carlos-cohen-reproduzimos-uma.html

 

 

 

 

 

2 comentários

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    CV 29.04.2018

    Muito bom dia e obrigada pelos simpáticos comentários. Eu também não conhecia Carlos Cohen e foi bastante difícil saber mais coisas sobre ele. Nasceu em Lisboa e seria de famílias relativamente abastadas, porque encontrei referências a um início de vida boémio, durante o qual teria gasto herança recebida. Tentei, em vão, encontrar registos de nascimento e de óbito, para saber mais da família, mas ainda não me foi possível. Existe, na Biblioteca Nacional, um documento de Rafael Bordalo Pinheiro sobre Carlos Cohen, que poderá ser útil consultar, quando houver disponibilidade para isso, porque não está online. Quanto ao edifício, parece-me que terá sido reconstruído e o local é onde está a Charcutaria Lisboa e uma casa de fast food, no piso térreo.Nos pisos superiores, não sei.
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