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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O prodigio da menina que poderia ter sido princesa de Portugal

catarina de portugal mãe querubina.jpg

D joao I duque bragança.jpg

 O suposto milagre terá ocorrido numa altura em que se jogava a independência de Portugal, cujo trono os pais da donzela também disputavam.

 

Querubina, filha do 6º Duque de Bragança, D. João - primeiro de seu nome - e de D. Catarina de Portugal, era bisneta de D. Manuel I e, quis o destino, que morresse com apenas oito anos, em 1580. Numa época em que a mortalidade infantil era avassaladora e implacável até nas classes mais altas, pouco mais haveria a dizer sobre esta criança, não fosse ser-lhe atribuído um milagre que terá ocorrido em Alcácer do Sal. Tudo aconteceu numa altura conturbada da história de Portugal, em plena invasão espanhola resultante da crise dinástica e na qual, tanto a sua família, como Alcácer, acabariam por ser intervenientes.

Tinham passado dois anos apenas sobre a trágica morte de D. Sebastião, numa outra Alcácer (Quibir) de má memória, em Marrocos, e contava-se pouco mais de um mês da morte do Cardeal-Rei D. Henrique. Não havendo descendente direto, os pais de Querubina – na imagem - estavam entre os que ambicionavam o trono.

Reivindicaram o título de rainha para sua mãe, D. Catarina, pois era filha de D. Duarte, por sua vez filho de D. Manuel I com D. Maria de Aragão e Castela, com quem tinha casado, como não poderia deixar de ser… na Alcácer alentejana.

Mas as coincidências não se ficam por aqui…

Voltando à menina Querubina, conta a “Historia Genealogica da Casa Real Portugueza”, de D. João Caetano de Sousa, que tinha vindo para Alcacer do Sal “mudar de ares”, em busca de melhoras para mal de que padecia. Ficou alojada convento de Aracoeli, de freiras clarissas - e acabaria por falecer e ser sepultada no mesmo local.

Foi aí mesmo, 17 anos depois, sob o olhar atento da comitiva enviada para trasladar os restos mortais para Vila Viçosa, que o caixão foi desenterrado e aberto. Encontrava-se, obviamente, “já gasto do tempo”, o mesmo acontecendo com os restos mortais da menina, totalmente desfeitos, à exceção da cabeça. Esta achava-se “com todos os cabelos”, ainda entrançados com uma fita encarnada, “fermosos e louros”, “tão perfeitos, que pareciam de pessoa viva”. Esta visão provocou “grande compunção às religiosas”, que assistiam ao ato, tanto mais que umas manchas semelhantes a sangue maculavam  inexplicavelmente o sudário em que estava envolvida: “cousa prodigiosa” no entender de todos.

A transferência das ossadas foi envolva em grande formalidade e culminou a 24 de julho, quando a desditosa criança foi sepultada no Mosteiro das Chagas, em Vila Viçosa.

Todas estas movimentações aconteceram já no reinado de D. Filipe I (II de Espanha, também ele descendente de D. Manuel I e, assim, primo da menina); pois a crise dinástica que poderia ter feito de D. Querubina princesa de Portugal culminou com uma invasão de “nuestros hermanos” facilitada pelo castelo de Alcácer do Sal, que, impreparado para defender fogo de artilharia, não ofereceu resistência e permitiu aos espanhóis chegar facilmente às portas de Lisboa.

A última coincidência é que a Restauração da Independência de Portugal, em 1640, se deu com um golpe que colocou no poder D. João IV, justamente tio de Querubina (embora nascido despois desta). Este iniciou o domínio da Casa de Bragança, que se prolongou até à implantação da República, 270 anos depois.

 

À margem

pes_2375 jaime IV duque de braganca.jpgNão foram apenas os restos mortais de D. Querubina que foram trasladados para Vila Viçosa nesta época, nem a menina tem o exclusivo dos milagres na família. A sua bisavó, Leonor de Mendonça (ou Mendoza), infeliz duquesa morta pelo marido – D. Jaime, 4º Duque de Bragança (na imagem) - ou a mando deste com o pretexto de um alegado adultério, foi, em 1590, repousar finalmente na Igreja da Esperança, trasladada de Montes Claros, onde havia sido sepultada em 1512. Diz a lenda, que manchas do seu sangue se conservaram durante muitos anos na casa onde foi assassinada.

Mas isso é outra história…

 

Fontes

Historia Genealogica da Casa Real Portugueza, de D. João Caetano de Sousa - http://purl.pt/776/3/

http://www.bdalentejo.net/BDAObra/obras/212/BlocosPDF/bloco11-99_108id.pdf

http://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/joao4.html

https://geneall.net/pt/nome/2375/d-jaime-4-duque-de-braganca/

 

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