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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O Ville de Victória afundou-se de madrugada nas águas do Tejo

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Houve já muitos naufrágios em frente a Lisboa, mas o que impressionou na desgraça do paquete francês foi a velocidade com que tudo aconteceu e a quantidade de vidas perdidas.

 

Dez minutos. Foi o que bastou para o Ville de Victória desaparecer nas águas do Tejo, à vista incrédula de todos os que presenciaram a tragédia, naquela fria madrugada de 24 de dezembro de 1886. Momentos antes, tudo corria de feição. Com a natural azáfama e burburinho de dezenas de homens a circular no convés, o navio francês procedia ao abastecimento e carregava a mercadoria com que deveria zarpar na manhã seguinte para o Rio de Janeiro. Pouco passava das 4h30 da madrugada quando o couraçado inglês Sultan trespassou o casco do paquete com o seu colossal esporão, ditando a sua perda irreversível.

 

Foi verdadeiramente o salve-se quem puder. E muito poucos puderam, porque foi tudo extraordinariamente rápido. Os 20 passageiros dormiam nos seus beliches, parte da tripulação, de 44 elementos, descansava também. Quando o capitão tocou a rebate o sino de bordo, para que todos se reunissem no tombadilho, muitos não chegaram a tempo.

 

Houve gente a atirar-se às águas, na escuridão da noite. Uns ali pereceram, outros tiveram mais sorte e foram resgatados pelas muitas embarcações que se encontravam nas proximidades – desde logo, as seis fragatas que tinham estado atracadas ao Ville de Victória para ali depositar carga – e outras da frota britânica que tinha dado origem ao desastre. Foram 32 as pessoas que não conseguiram salvar-se.

 

A pouca distância, toda a bela Lisboa dormia descansada e serena sem saber da desgraça que ocorrida a meio do rio. Quando finalmente os socorros oficiais acudiram, já nada podiam fazer. No lugar onde antes se apresentava o paquete, em frente a Alcântara, apenas se via a ponta de um dos mastros, testemunha silenciosa dos tristes acontecimentos nas águas então já calmas.

 

Houve muitos naufrágios no Tejo, mas o que impressionou neste foi a grande e veloz perda de vidas humanas.

 

Durante dias, nas praias de Paço de Arcos, Dafundo e até em Porto Brandão, a sul, deram à costa destroços do navio, sobretudo pipas de vinho, bagagem – logo pilhada – e cadáveres. Durante dias, ainda, centenas de pessoas vagueavam pelas margens para ver alguma coisa e tentar perceber o que tinha acontecido.

 

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 O enterro dos que pereceram saiu da ermida das Dores, em Belém, e suscitou idêntica curiosidade popular e comoção, embora apenas dois dos mortos fossem portugueses.

 

Marcaram presença o pessoal diplomático francês sediado em Lisboa; militares da esquadra inglesa e algumas autoridades portuguesas. Houve várias cerimónias religiosas e, tanto a comunidade francesa, como muitos portugueses, mobilizaram-se para ajudar as vítimas e as suas famílias.

 

O salão do Teatro da Trindade (na imagem) recebeu um concerto com praticamente todos os artistas do "S. Carlos", onde pontificou a “fina flor da sociedade lisbonense” e ao qual até a família real assistiu, com o objetivo de angariar fundos para apoiar os náufragos e as famílias dos mortos no Ville Victoria.

 

Mas, afinal, o que provocou tamanha fatalidade?

 

Segundo a imprensa da época, no Tejo estavam fundeados vários navios da frota de guerra britânica. Três destes garraram, o que quer dizer que, por estarem mal ancorados, devido à forte corrente, ou por qualquer fenómeno natural – a revista Occidente chama-lhe "estoque de água" - arrastaram os respetivos ferros e seguiram à deriva, rio abaixo, chocando entre si e com outras embarcações nas proximidades. Na verdade, as perdas poderiam ter sido muito superiores, pois houve outros abalroamentos, mas só o Ville de Victoria naufragou, ferido de morte pelo couraçado Sultan.

 

À margem

Trafaria Arte Pintura The wreck of HMS Bombay CastHá listagens com centenas de navios afundados na costa portuguesa e também um grande número no rio Tejo, em especial à entrada da barra, mas igualmente a montante. Um dos casos mais conhecidos é o da nau Nossa Senhora dos Mártires, afundada em 1606 no seu regresso da Índia, carregada de pimenta preta e outros bens, alguns dos quais mostrados na Expo’ 98. Os registos começam há centenas de anos e terminam já no século XX. Fidel Amant (1689); Santo António de Pádua, Santo António e Almas, Serea, Santa Catarina (todos em 1724); Le Contenu (1727); Le Neptune (1745); Bombay Castle (1796) – na imagem -; Jane (1829); Howard Primrose (1856); Roberto Ivens (1917); Portugal (1941) são apenas alguns exemplos de navios que submergiram junto a Lisboa. A estes, soma-se o emblemático navio de salvamento Patrão Lopes, que em 1936 se perdeu ao ser perfurado pelos mastros do batelão Franz, que tentava salvar. E o icónico Tollan, com o qual pereceram quatro pessoas, quando se virou após chocar com o navio sueco Barranduna. Esteve encalhado junto à margem entre 1980 e 1983.

Mas isso são outras histórias…

 .......

Saiba mais sobre o naufrágio do Ville de Victória, aqui.

 

Fontes

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Occidente – Revista ilustrada de Portugal e do Estrangeiro

10º ano volume X; nº 289 – 1 janeiro 1887

10º ano volume X; nº 291 – 21 janeiro 1887

 

Biblioteca Nacional Digital

http://purl.pt

Diário Illustrado

15º ano, nº 4:911 - 25 dezembro 1886

15º ano, nº 4:914 - 28 dezembro 1886

15º ano, nº 4:915 - 29 dezembro 1886

https://almada-virtual-museum.blogspot.pt/2016/07/pequeno-canal-ou-golada-do-tejo.html

http://arqueologia.patrimoniocultural.pt

https://nationalgeographic.sapo.pt/historia/grandes-reportagens/1090-descoberta-patrao-lopes-dez15?showall=1

http://www.cmjornal.pt/mais-cm/memoria-cm/detalhe/tollan-o-navio-que-ninguem-conseguia-retirar-do-tejo

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tollan

 

 

2 comentários

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    CV 08.03.2018

    Boa noite. A ermida das Dores ainda existe, em Belém, na rua do Embaixador. Tinha sido alvo de obras de beneficiação poucos anos antes destes acontecimentos. Quanto ao nome do barco, penso que pretende homenagear uma cidade do Quebeque, no Canadá. Quando escrevi, estranhei não ser ville de victoire e, embora não tenha dedicado muito tempo ao assunto, foi esta a informação que me pareceu mais plausível.
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