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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Os estranhos destinos das filhas de Carlos Relvas  

 

 

 

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Entre a genialidade e o escândalo, o preconceito e a tradição, o autoritarismo e a desgraça. A história de duas mulheres que seguiram caminhos opostos… e a vida trágica dos seus irmãos.

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Carlos Relvas*, exímio fotógrafo, inventor brilhante, corajoso toureiro amador e eminente fidalgo da Casa Real, teve duas filhas**. A mais velha, que herdou o nome da mãe, Margarida, fez o percurso esperado de alguém da sua classe e condição, foi até uma verdadeira companheira do pai, pois com ele partilhava o gosto e o talento para a captação de imagens. Quanto à irmã, Clementina (como a avó paterna), ficou para a história pelo escândalo que rodeou o seu casamento forçado com o noivo escolhido pela família, num drama que espelha o preconceito e a ignomínia reservada às mulheres que, em finais do século XIX, ousavam trilhar o seu próprio caminho.

 

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As irmãs nasceram em casa abastada e culta de grandes proprietários rurais e nobres da Golegã. As regras estavam bem definidas à partida.

Margarida foi a primeira mulher fotógrafa em Portugal. Não por ter sido quem pela primeira vez acionou uma máquina fotográfica, mas porque foi com ela que o “belo sexo” lusitano se estreou de forma continuada e consistente naquela arte.

 

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Fez com o pai verdadeiras maratonas para conseguir os melhores planos, participou em numerosas exposições e concursos, onde os seus trabalhos foram amplamente premiados. Ainda assim e apesar da singularidade e valor da sua obra, nunca se livrou da suspeição de não ter sido autora das imagens que ostentavam a sua assinatura. Talvez porque, na época, questionava-se que as mulheres pudessem ser dotadas de criatividade artística ou possuir tal domínio e entendimento de técnicas, para mais de uma atividade que ainda era estranha e quase mágica para a maior parte da população.

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Fica no ar a dúvida: será que Margarida gostava mesmo de fotografar ou o fazia por respeito e obediência ao pai, o altaneiro Carlos Relvas, que poucos ousavam desafiar? É que, depois de casar, cedo e de acordo com a sua condição, com o médico Alberto de Campos Navarro, deixou de se dedicar a esta atividade, optando pela muito mais recatada pintura. Foi a única a deixar descendência.

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Pois, se Margarida seguiu o que dela se esperada, já Clementina teria uma existência muito diferente, que embora permaneça envolta em mistério, causou profundo escândalo, muito pela notoriedade do clã Relvas.

É difícil perceber o que é ficção e o que realmente aconteceu, incerteza para a qual contribui o facto de Alves Redol ter-se inspirado na família Relvas para escrever o seu romance Barranco dos Cegos.

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Certo é que a jovem estava prometida ao primo José da Cunha d’Eça Azevedo, doutor de leis, mas, como o destino adora contrariar estes arranjos familiares, apaixonou-se por um campino criado de seu pai e, ao que parece, era correspondida. Ainda assim, acabaria, aos 21 anos, por casar com o noivo apalavrado.

 

 

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Conta a lenda que o apaixonado desapareceu, deixando Clementina perfeitamente desesperada. Terá sido encontrado, 50 anos depois, emparedado numa propriedade da família Relvas cedida para a construção do Tribunal da Golegã. Foi identificado por um anel oferecido pela mulher amada, com as suas iniciais e um símbolo alusivo à profissão.

A versão popular diz ainda que Clementina enlouqueceu e acabou os seus dias a pedir esmola em Lisboa, mas parece que não foi bem assim.

casamento de clementina e manuel hipolito ferreira

 

Sabemos que, por opção ou imposição, alguns anos após o casamento, se refugiou no Convento de Santo António da Sertã, que a família paterna adquiriu com a extinção das ordens religiosas e Clementina herdou.

Pouco depois, intentou uma ação de separação contra o marido, mas o processo arrastou-se pelos tribunais, já que o divórcio não era permitido até à implantação da República e, no seu caso, só viria a ser decretado em 1912.

casamento de clementina e manuel hipolito ferreira

Posto isto, parece ter continuado com a sua vida, pois voltou a casar, em 1918, com o amigo de longa data, Manuel Hipólito Ferreira. Um enlace serôdio que se espera ter sido mais feliz que o primeiro.

 

 

 

 

Todavia, vida tem destas ironias: Carlos Relvas, que contrariou o amor da filha e já não assistiu a este matrimónio, teve ele próprio uma relação contestada pela família.

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Menos de um ano após o faustosíssimo funeral (na imagem) da sua amantíssima primeira mulher, Margarida Amélia, filha dos condes de Podentes e conhecida como “a Santa da Golegã”, também ele provocou a indignação geral, casando com outra mulher***. Os filhos não compareceram à boda e nunca aceitaram essa união (na imagem, o casal em passeio pelos Alpes).

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À Margem….

 

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Carlos Relvas teve dois filhos homens. O primeiro, Francisco, foi encontrado morto aos 18 anos, no que oficialmente se atribuiu a um acidente de caça, mas que rapidamente a opinião pública justificou como suicídio por alegadamente ser obrigado a casar com quem não escolheu ou homicídio por vingança contra a família.

O outro descendente, José, também teve a sua dose de infortúnio: os seus três filhos morreram jovens, um deles por suicídio, não tendo deixado progenitura. Enfrentou muitos desentendimentos com o pai, profundamente monárquico. Cada um à sua maneira, marcaram de forma indelével a história do seu tempo. José Relvas também privilegiava a cultura, recheando com obras de arte a sua residência de Alpiarça, a Casa dos Patudos****, um projeto de Raúl Lino que é hoje um interessante museu municipal.

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Ficou mais conhecido, no entanto, pelo seu protagonismo no dia 5 de outubro de 1910. Foi ele que, a partir da varanda da Câmara Municipal de Lisboa, anunciou à multidão a implantação da República em Portugal. Foi escolhido pelo seu carisma, mas também porque o líder do Partido Republicano se encontrava afónico.

Mas isso é outra história…

 

………………….

*Carlos Augusto de Mascarenhas Relvas de Campos

**Margarida Augusta de Azevedo Relvas e Maria Clementina Mascarenhas Relvas e Campos

*** Mariana do Carmo Pinto Correia

****Porque na zona havia abundância de patos.

………….

Para conhecer a multifacetada obra de Carlos Relvas, aconselha-se visita à sua extraordinária casa-estúdio, na Golegã.

……………

Fontes

Uma família de fotógrafos. Carlos e Margarida Relvas; de Cátia Salvado Fonseca; Lisboa: Chiado Editora – 2005. Resumo disponível em: https://repositorio.uam.es/bitstream/handle/10486/11611/57453_20.pdf?sequence=1

Mulheres, casamento e a família em Portugal na 2º metade do século XIX-princípios do século XX: alguns aspetos, de Irene Vaquinhas; in História das Mulheres de Língua Portuguesa e Espanhola, organização de António Emílio Morga – 2017

Ritualizar a morte no século XIX: O funeral de D. Margarida Relvas (1837-1887) na Golegã, de Cláudia dos Santos Araújo Feio. Disponível em https://www.academia.edu/4476889/Ritualizar_a_morte_no_seculo_XIX_-_o_funeral_de_D._Margarida_Relvas

Resenha das famílias titulares e grandes de Portugal, de  Albano Anthero da Silveira Pinto, 1819-1885Augusto Romano Sanches de Baena e Farinha,1822-1909; F.A. da Silva; Lisboa -  1883

https://archive.org/details/resenhadasfamili02silvuoft/page/272/mode/2up

Gazeta da Relação de Lisboa – Revista Judicial

7º ano, nº 20 – 30 ago. 1893

Disponível em https://books.google.pt/books?id=C5UvAQAAMAAJ&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false

Hemeroteca Digital de Lisboa

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Ilustração Portugueza

II série; n~642 – 10 jun 1918

 

https://www.conventodasertahotel.pt/index.php/pt/home/historia/pequenas-historia/20-historias/132-jose-relvas-e-a-ligacao-ao-convento-da-serta-hotel

https://sites.google.com/site/pequenashistorietas/personalidades/miguel-relvas

https://www.publico.pt/2017/08/19/culturaipsilon/noticia/fotografar-reis-pastores-mendigos-e-cavalos-da-mesma-maneira-1782712#&gid=1&pid=3

http://jornalalpiarcense.blogspot.com/2014/03/o-grande-amor-de-clementina-relvas-irma.html

https://www.cm-alpiarca.pt/areas-de-atividade/cultura/casa-dos-patudos-museu-de-alpiarca

https://media.rtp.pt/visitaguiada/notas/esqueletos-no-armario/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Relvas

https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Relvas

Fotobiografia de José Relvas 1858-1929; de José Raimundo Noras; edição Imagens & Letras. Disponível em

https://issuu.com/imagens/docs/joserelvas/30

https://www.cm-golega.pt/casa-relvas

www.geneall.net,pt

https://geneall.net/pt/nome/64284/carlos-augusto-de-mascarenhas-relvas-de-campos/

https://geneall.net/pt/nome/64283/margarida-amelia-mendes-de-azevedo-e-vasconcelos/

https://geneall.net/pt/nome/180591/margarida-augusta-de-azevedo-relvas/

https://geneall.net/pt/nome/2475189/maria-clementina-mascarenhas-relvas-e-campos/

https://geneall.net/pt/nome/2475191/francisco-mascarenhas-relvas-e-campos/

https://geneall.net/pt/nome/71000/jose-relvas/

www.geni.com

https://www.geni.com/people/Carlos-de-Mascarenhas-Relvas-de-Campos/6000000024008957302

https://www.geni.com/people/Clementina-de-Mascarenhas-de-Azevedo-Relvas/6000000024009498934

https://www.geni.com/people/Jose%CC%81-da-Cunha-Ec%CC%A7a-de-Azevedo/6000000024066017971

 

 

3 comentários

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    CV 04.04.2020

    Olá, grata pelo cometário. Neste caso também não sei se terá mesmo sido verdade. Só para ter uma ideia, todas as publicações que encontrei sobre os Relvas afirmavam que Clementina Relvas tinha enlouquecido e tinha sido vista a pedir esmola em Lisboa - até um programa do José Hermano Saraiva - e nada mais diziam sobre a sua vida. Quando encontrei a reportagem do seu segundo casamento, nem queria acreditar. Fiquem tão feliz, como se conhecesse a senhora.
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    mitologia 04.04.2020

    Bem, se o excelso e divino Professor Doutor José Hermano Saraiva diz isso, temos de acreditar nele. Ele está acima de qualquer dúvida possível!
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