Os intelectuais também se conquistam pelo estômago

Os escritores são homens e, como tal, diz a sabedoria popular, são conquistados pelo estômago. Poderá ser, mas, em meados do século XIX, em Portugal, eram os escritores que usavam a culinária para seduzir os seus leitores e não era só com descrições de opíparos banquetes – que também abundavam na literatura – mas metendo literalmente as mãos na massa e arriscando confecionar complexas e sofisticadas iguarias que depois exibiam em encontros que tinham tanto de literário, como de culinário, satisfazendo o espírito, bem como a barriga. Foi uma verdadeira moda a que poucos intelectuais escaparam, resultou em alguns pratos criativos e numa compilação em livro.
Poetas, dramaturgos, jornalistas, ilustradores, historiadores, folhetinistas…esqueceram divergências literárias e uniram-se à volta da mesa. Por momentos, largaram a pena e dedicaram-se a conceber sonetos doces, romances de sabor, crónicas de aromas deliciosamente inebriantes, odes suculentas ao melhor que a imaginação humana consegue criar fazendo uso de simples alimentos e condimentos.

Multiplicam-se relatos que atestam a mão que muitos dos nossos literatos da segunda metade do século XIX tinham para a cozinha. Tanto, que as suas receitas até serviram de base para um livro que foi um verdadeiro sucesso de vendas, publicado pelo criador de rosas, ourives e editor Paul Henry Plantier, pessoa muito conhecida e respeitada nos meios intelectuais.
A casa de Domingos Martins Peres, na Ameixoeira, era outro ponto de encontro de muitas destas mentes brilhantes, que ali convergiam noite dentro, depois de passarem pelo teatro ou pela ópera, e experimentavam os seus dotes frente ao fogão, incentivados pelo proprietário do espaço e pelos outros convivas, sempre ávidos de novas degustações.
Um exemplo notório de grande gastrónomo é o escritor Bulhão Pato (na imagem). Tendo ficado célebre por uma ameijoas que não cozinhou, apresenta-se, ao invés, como especialista numa célebre açorda à Andaluza e criador de uma muito aclamada forma de cozinhar lebre no espeto, aromatizada com as ervas do campo alentejano, envolta em toucinho e pensada para consumir em ambiente de caça. Era um mestre da cozinha das emoções, entusiasta do colorau, e suas são também preciosas indicações para umas perdizes à castelhana e um arroz opulento (com queijo).

Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias, ressalvando que não inventou a receita que apresenta, ensina a fazer ovos verdes à figueirense e Júlio César Machado (na imagem), o trágico escritor bem-humorado, resolveu inovar uns prosaicos ovos mexidos para surpreender num final de refeição com amigos igualmente letrados. Mas, o seu contributo vai além disso, pois deixou uma receita de caldeirada - com caril e vinho do Reno, para inebriar e alegrar os últimos momentos da enguia aí sacrificada.
Teixeira de Vasconcelos, político e jornalista que, simbolicamente, deu o título O Prato de Arroz Doce a um romance sobre a revolução da Maria da Fonte, inventou umas deliciosas sardinhas recheadas e um outro arroz, à moda de Valencia.
Aos seus escritos para o teatro, Luis d’Araújo (na próxima imagem) juntou muitos pratos, com destaque para umas ostras imperiais e a ousadia de se ter abalançado a improvisar umas “sardinhas de surpresa”, pressionado pelo Domingos Martins Peres, que o queria a inovar. O resultado foi uma espécie de fricassé, bem diferente das outras duas propostas de sardinhas do romancista Francisco Gomes de Amorim, no forno com ovos e queijo e recheadas com marisco.

Luciano Cordeiro, historiador e escritor, deixou-nos uma leve salada de lagosta e o célebre caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro criou uma peculiar receita de “eirós do mar à patriota”.
E, o que dizer da sopa de caldo de peixe com camarão e azeitonas que Henrique Lopes de Mendonça somou a uma obra literária vasta e diversificada?
Ramalho Ortigão (na próxima imgem), mais conhecido pelas suas irónicas páginas de “Farpas” e tantas outras obras, cunhou um “método soberano e infalível” de fazer batatas soufflé verdadeiramente etéreas, enquanto Fialho d’ Almeida, celebrizado por Os Gatos, era perito na confeção de bacalhau guisado à espanhola.

Ficou ainda mais conhecido o seu arroz de perdizes, que provocou “um deslumbramento”, quando servido numa célebre ceia de 1901 na qual os escritores se vestiram como algumas das suas personagens, nomeadamente femininas. Noutro ano, segundo o autor, este pitéu terá sido até responsável pela ressurreição de Jesus Cristo, três dias antes da Páscoa!…que os católicos lhe perdoem a heresia.
Efetivamente, são muitos os exemplos atestando que “os literatos portugueses atiraram-se ao petisco como gato a bofes”. A maioria aventurava-se em pratos salgados, mas o visconde de Benalcanfor, por exemplo - que nos deixou um volume dedicado a restaurantes e petisqueiras de boa memória - atreve-se num bolo real inspirado na receita das freiras clarissas do convento de Nª Sª de Aracoeli, de Alcácer do Sal, e o especialista em língua portuguesa, Cândido de Figueiredo, que chegou a viver naquele mesmo concelho alentejano, enriquece este verdadeiro manual de bem confecionar e comer com um doce de tomate à sua maneira.
Finalmente, João da Câmara, o primeiro português a ser nomeado para o Prémio Nobel, furtou-se à receita que Plantier lhe pediu, mas partilhou a memória de umas sandwiches de agrião apanhado num riacho, que lhe souberam a faisão em momentos de grande aperto alimentar. Quem dá o que tem…

À Margem
A recolha de Paul Henry Plantier não podia ter um resultado mais diversificado, quer nas propostas gastronómicas, quer nos autores, quer, ainda, na exposição das suas participações na obra O Cozinheiro dos Cozinheiros: receitas em prosa, em verso, em carta ou notícia… Perto de 800 páginas, das quais 700 são dedicadas à conservação e preparação dos alimentos, o que faz com muito detalhe. Mais de 1500 receitas e contributos de três dezenas de intelectuais, portugueses e estrangeiros.
Muitos são nomes que então representavam o melhor e mais moderno da produção literária nacional, com vasta e aclamada obra, quer em livros vendidos, folhetins publicados, crónicas aplaudidas, peças de teatro representadas. Eram verdadeiras vedetas. Hoje, são nomes praticamente esquecidos, salvo algumas honrosas exceções.
A Eça de Queiroz, é um nome maior desta mesma geração. Desconheço a queda para a cozinha, mas é notória na sua escrita uma quase obsessão pela gastronomia, com perto de mil descrições de refeições, entre jantares, almoços e ceias, para além de incontáveis referências a alimentos e pratos mais ou menos elaborados, num completo repertório daquilo que era serviço à mesa em Portugal, até ao final do século XIX.
Mas isso é outra história...
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Já aqui antes falei de cozinheiros, nomeadamente o nosso primeiro chef-estrela, João da Matta.
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Fontes
O Cozinheiro dos Cozinheiros – Collecção de mais de 1500 receitas, Lisboa, Paul Plantier editor, 1905. Disponível aqui: https://pdfcoffee.com/o-cozinheiro-dos-cozinheiros-pdf-free.html
Hemeroteca digital de Lisboa
Binóculo, 10.12.1870
Brasil – Portugal, 16.06.1908
Illustração Portugueza, 17.09.1906, 13.01.1908
Almanach Bertrand, 1903
Maria Alzira Seixo (Universidade de Lisboa), Os Sabores da Literatura ou: como a gastronomia se apoia nos modos de dizer, in Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 6, n° 12, abril de 2014, Universidade Federal Fluminense,
Maria Antónia Goes, À Mesa com Eça de Queiróz, Colares Editora: https://loja.feq.pt/loja-online/a-mesa-com-eca-de-queiros/
https://e-cultura.blogs.sapo.pt/tag/paulo+plantier
https://vejacavejala.com/bolinhos-de-bacalhau/
https://panelasemdepressao.wordpress.com/2016/11/15/recuando-ao-seculo-xix/
https://almada-virtual-museum.blogspot.com/2014/06/rosas-do-pombal.html
https://asreceitasdaavohelena.blogspot.com/2023/01/paul-plantier-paulo-henrique-plantier.html
https://panelasemdepressao.wordpress.com/2016/11/15/recuando-ao-seculo-xix/
Imagens
Desenho de Rafael Bordallo Pinheiro, Binóculo, 10.12.1870
Desenho de Rafael Bordallo Pinheiro, Dicionário das Personagens da Ficção Portuguesa: PATO, Bulhão
Fotografia de Joshua Benoliel, Illustração Portugueza, 13.01.1908
Illustração Portugueza, 17.09.1906
Almanach Bertrand, 1903
