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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Os "pais" do Museu Pedro Nunes

museu municipal porta manuelina.GIF


Há 125 anos, um grupo de homens teve a ideia de reunir vestígios arqueológicos e outro património com o objetivo de criar um museu que contasse a longa e rica história de Alcácer do Sal.

Quem visita o renovado museu Pedro Nunes, recentemente inaugurado em Alcácer do Sal, não sabe que, embora muitas peças expostas provenham de escavações arqueológicas mais recentes, uma grande quantidade de objetos que hoje documentam a história daquela cidade se deve ao trabalho e dedicação de um pequeno grupo de homens que, há 125 anos e numa época em que os vestígios históricos não eram valorizados e tantos foram destruídos, teve a visão de preservar, reunir e divulgar testemunhos do passado desta povoação alentejana,

 

Museu municipal seccao romana e antigo estandarte.

 

Foi em 15 de outubro de 1894 que o Município de Alcácer do Sal decidiu criar um Museu Municipal, que durante muito tempo funcionou numa sala do edifício dos Paços do Concelho. No ato solene estiveram presentes José Serra Lince (à época, presidente da Câmara); Manuel Augusto de Matos, António da Costa Vila-Boim; Manuel Perez Ramirez e Francisco Vieira dos Reis, como vogais. Joaquim Correia Batista, secretariou. É precisamente este último e o padre Francisco Matos Galamba que se tornam os grandes impulsionadores do Museu, entregando para este fim comunitário objetos que já possuíam, ajudando a salvar outros em risco de desaparecimento ou vandalização e reunindo tudo numa coleção bastante diversificada.

museu municipal ceramica pre-romana.GIF

 

Dois meses após a fundação, também o município chama a sim essa tarefa agregadora, lançando um apelo à população. "Reunam e arquivem quaisquer objetos que pela sua antiguidade possam atestar a existência de antigas civilizações e servir ao mesmo tempo de auxílio a estudos científicos", desafiava José Serra Lince, lembrando que, em Alcácer do Sal, "constantemente" se encontravam "vestígios de antigas grandezas", muitos dos quais haviam saído do concelho ou encontravam-se dispersos e sem utilidade pública, nas mãos de particulares "mais ou menos cautelosos", pelo que à Cãmara, pareceu "serviço meritório e sem dispendio" proceder à recolha e catalogação destes bens.

 

Museu porta.jpg

 

Em 1895 e 1898, José Leite de Vasconcelos, fundador do Museu Nacional de Arqueologia, em visita a Alcácer do Sal, relata os objetos então existentes no Museu, dando especial ênfase aos "pré-históricos, proto-históricos. romanos, árabes e portugueses", mas relatando também a coleção de numismatica, da qual estava responsável o Padre Matos Galamba.
Em 1914, o Museu foi transferido para o atual espaço, na Igreja do Espírito Santo, entretanto adquirida pelo município e, em 1979, ganhou o nome do grande matemático Pedro Nunes, também ele natural do concelho Alcácer do Sal.


museu novo.jpg

 

Durante uma tão longa história, o museu recebeu os contributos de muitos alcacerenses e passou por diversas fases.

Em 1988 apresentou ao público uma exposição permanente de objetos arqueológicos e, em 2007, encerrou devido ao elevado grau de degradação. Realizaram-se escavações arqueológicas, que resultaram em numerosos achados no interior da própria igreja, e iniciou-se o longo caminho tendente à requalificação, dando origem ao espaço agora aberto a quem o queira visitar.

Durante todos estes processos, é justo destacar, entre outros, pela responsabilidade que tiveram sobre aquele museu, os nomes de João Teles Antunes; Fernando Gomes, João Lázaro Faria e Marisol Ferreira, coordenadora municipal do atual projeto de musealização.


À margem

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Alcácer do Sal tem uma ocupação humana muito antiga e permanente. Essa realidade faz com que, a cada intervenção neste território se descubram vestígios de outras épocas e culturas. Durante séculos, esses vestígios encontrados por particulares foram sendo reunidos, outros vendidos, destruídos e outros ainda utilizados em construções modernas. Capiteis, fustes e bases de colunas romanas, assim como lápides, foram integradas em monumentos cronologicamente muito posteriores, o que é visível ainda hoje, referidamente em igrejas. Há relatos da descoberta de bases e outros fragmentos de estátuas inseridos em muros ou paredes de casas, por exemplo. A situação agrava-se porque a região é marcada pela excassez de pedra passível de utilização em construção, fazendo com que os blocos disponíveis em edifícios abandonados e ruínas rapidamente fossem "desviados" para outras edificações, como terá acontecido, nomeadamente, com as muralhas do antigo castelo e com o Convento de Aracoeli, que ali funcionou, tendo encerrado com morte da última freira, em 1874. Há até um cartaz que parece documentar a forma como, a dada altura, a câmara também contribuiu para esta delapidação do património, vendendo as pedras apeadas da antiga fortaleza a 30$ o metro cúbico.

Mas isso é outra história...

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Os meus agradecimentos a Maria Antónia Lázaro, pela informação disponibilizada.
Os meus agradecimentos a Baltasar Flávio da Silva, pela cedência desta última imagem, pertencente ao seu variado acervo documental.

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Fontes

O Archeólogo Português – Colecção Illustrada de materiais e notícias; Museu Archeológico de Alcácer do Sal – Série I, Vol. I, pg..46 – 47 - José Leite de Vasconcelos, Museu Ethnográphico Português - 1895. Disponível em:
Museu Archeológico de Alcácer do Sal


O Archeólogo Português – Excursão Archeológica a Alcácer do Sal– Série I, Vol. I, pg..65 – 92 - José Leite de Vasconcelos, Museu Ethnográphico Português - 1895. Disponível em:
Excursão archeológica a Alcácer-do-Sal: 1. De Lisboa a Alcácer: 2. Notas ethnográphicas: 3. Uma raça originária da Africa: 4. Alcácer vetus: 5. Cornelio Boccho: 6. Inscripção romana inédita: 7. Necrópole pre-romana: 8. Museu Municipal: 9. Votos e ex-votos: 10. Os Castellejos

 

O Archeólogo Português - Excursão Archeológica ao Sul de Portugal – Série I, Vol. IV, pg..103 - 134- José Leite de Vasconcelos, Museu Ethnográphico Português - 1898. Disponível em:

Excursão archeológica ao Sul de Portugal : Alcácer e arredores - Torrão - Alcaçovas - Évora e arredores

http://www.cm-alcacerdosal.pt/pt/municipio/concelho/patrimonio/museus/museu-municipal-pedro-nunes/

 

Imagens
Arquivo Municipal de Alcácer do Sal
PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/325-1
PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/326-1
PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/01/01/01/327-1

Arquivo pessoal de Jorge Portugal Branco (agradecimento à família e a Maria Antónia Lázaro) - Original da carta escrita por José Serra Lince

http://www.cm-alcacerdosal.pt/pt/municipio/concelho/patrimonio/museus/museu-municipal-pedro-nunes/

 

3 comentários

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    CV 01.04.2020

    Aconselho o livro Pedro Nunes, de Maria Teresa Lopes Pereira.
  • Sem imagem de perfil

    João 01.04.2020

    Obrigado pela dica, agradeço sinceramente a sua melhoria continua da informação,
    sabe Senhora Cristina, eu já sou gato escaldado quando temos autores portugueses da Republica que colocam um pouco ou até quase toda a imaginação de o que podia ter acontecido e descobrir que aquilo que conhecemos não é inteiramente verdade. É muito complicado.

    Vou dar um exemplo, temos a casa de Anadia e de Mangualde, ao estudar os registos desta casa, a opinião de vários autores que confirmam a veracidade da tal casa na Republica.

    Eu enviei para a Fundação da casa de Mangualde dados antigos do proprietário dessas casas e terras, não obtive resposta, calaram se, toda esta gente são condes, marqueses do fazer do conta e com autores conceituados a dar o avalo

    Quando vou procurar nos registos antigos de 1800 e anterior a esta data, não há nada, não encontro ninguém que tenha pertencido alguma vez à casa de Mangualde, aliás existe sim um Miguel Paes do Amaral cavaleiro e fidalgo, que não consta em nenhum registo histórico dos autores e isto é que é muito estranho.

    Até relativo à genealogia da casa de Paes de Amaral, não vem mencionado os nomes de Sr. Bento Paes do Amaral em lado nenhum e é o único que tem foro e titulo de fidalgo e cavaleiro de 1696, não falam de Mangoalde como senhores titulares.

    Falam sim de este Sr. Bento Paes do Amaral pertencente à casa de Sua Magestade D. Pedro II

    A seguir falam do Sr. Bento Paes do Amaral ser filho de Sr. Miguel Paes do Amaral e de sua casa. E a casa é Paes do Amaral e não é Mangualde.

    Registo 1 - Fidalgo de Sua Magestade, portanto a casa de Mangualde, Hospital era de Sua Magestade e não da família Paes do Amaral, jaz a prova. Eram Cavaleiros e Fidalgos e só ao Sr. Bento Paes do Amaral que não consta na vossa árvore de genealogia, é estranho de facto.

    BERNARDO PAES DO AMARAL, natural da Villa de Azurara, Comarca de Vizeu, filho de Simão Paes do Amaral, Fidalgo da Casa de Sua Magestade, e neto de Miguel Paes do Amaral. Fidalgo Cavalleiro, por Alvará de 9 de Fevereiro de 1696.
    Livro 10 das Mercês d'ElRei D. Pedro II, folhas 176 verso. x

    BENTO PAES DO AMARAL, natural da Freguezia de S. Julião de Mangoalde, Bispado da Cidade de Vizeu, filho de Miguel Paes do Amaral, Fidalgo da Casa, e neto de Miguel Paes do Amaral.

    Facultei lhes registos muito antigos do Rei que era o titular desta casa e os membros da família Paes do Amaral, "roubaram ao Rei propriedades", não existe aforamento de passagem de propriedade para a tal família, nada.

    tronco da Illutre, e antiga Familia dos Paes do Amaral de Mangoalde, que certamente não apparece, nem ferá inferior na diftincção, ou antiguidade ao Morgado de Pindo

    Por confequencia fe deve ficar conhecendo hum outro Solar, e tronco da Illutre, e antiga Familia dos Paes do Amaral de Mangoalde, que certamente não apparece, nem ferá inferior na diftincção, ou antiguidade ao Morgado de Pindo, que fó elles hoje reconhecem, não fei porque razão. Afim como ignoro tambem o que houve, para não pofluirem, nem confervarem o Mórgado de Oliveira do Hofpital, com que menos fe não poderiam talvez abonar : {ubindo ele tanto aos primeiros tempos do Sr. Rei D. Afonfo III., em que he notavel o timbre &c.; e não dou como exacto, que achando-te na Caza de Touriz, já não etava na de Mangoalde, Suando alhearam a Caza, e Mórgado das Fervenças. Veja-fe mais abaixo a Nota 113. ao § feguinte : e quanto a Fr. André , quanto vai particularmente em os §§ 44. 66. 75, e feguintes da Parte III. (111) Ainda que no fim delle (a f.42.) fe faça a Advertencia de que não extrahiram a referida Carta em a melma Era, na qual lhe foi dada, mas fó na de 1297, e que então he que por efe motivo fe efcreveo, ou lançou no mencionado Livro da Chancellaria. Por quanto, em pouco etaria a diferença à e nenhum embaraço daqui pôde refultar, até á vita das Inquirições.

    Obrigado pela sugestão.
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