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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Os poucos portugueses nomeados e a mulher que se propôs para o Nobel

 

Premios-Nobel-Historia-Controversias-e-Conquistas-

 

Martina Maldonado escreveu aos monarcas suecos candidatando-se para receber um Prémio Nobel, algo que foi arrojado mas insensato, pois fez com que fosse automaticamente excluída das nomeações. De resto, na primeira metade do século XX contam-se pelos dedos das mãos os portugueses que tiveram essa honra.

A lista de nomeados para os Prémios Nobel é secreta durante meio século. Nos primeiros 70 anos de atribuição, sabemos que só um português recebeu o galardão e, nos dados já tornados públicos, percebemos que os nossos compatriotas candidatos contam-se pelos dedos das mãos – nove apenas. A informação oficial, no entanto, não fala de uma portuguesa que teve o descaramento de se auto propor, algo raro, até porque não é permitido.

Chamava-se Martina Carolina Reboli de Bulhões Maldonado e, em 1906, resolveu escrever aos reis da Suécia, sugerindo-se para receber o Prémio Nobel da Literatura ou o da Paz. Achava que a sua atividade como escritora a candidatava ao primeiro e que as suas boas ações em prol dos outros a tornavam elegível para o segundo.

Reuniu um conjunto de cartas abonatórias da sua pretensão, entre as quais se contavam missivas das rainhas Maria Pia e D. Amélia e, ainda, da rainha de Espanha. Somavam-se, entre outros, testemunhos do escritor Bulhão Pato, do núncio apostólico em Portugal e do bispo de Pouso Alegre, ambos veiculando a bênção apostólica dos papas Leão XIII e Pio X, o que indicia que preparara a candidatura com antecedência de pelo menos três anos. Pediu também aos representantes da Suécia em Portugal e português naquele país que intercedessem por ela.

Não admira que o seu trabalho tivesse o aval da igreja, já que Martina era muito religiosa e, nas suas obras** – que enviou aos monarcas suecos - predomina esta temática.

Enunciava igualmente as suas atividades beneméritas, procurando, assim, encaixar-se tanto no prémio ”na parte destinada às letras”, como no instituído “para quem alguma coisa de bom, de útil tenha feito em prol da humanidade”. Apostava no dois em um, pensando aumentar as suas probabilidades de ser galardoada.

Escusado será dizer que não teve sucesso, até porque o facto de se ter proposto a excluiu automaticamente, de acordo com os regulamentos, pois, as nomeações cabem a individualidades e instituições escolhidas pelo comité.

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A primeira mulher portuguesa a ser oficialmente nomeada seria a poetisa e escritora Maria Madalena de Martel Patrício (1884-1947), em 1934 (na imagem). Repetiu a proeza por 14 anos, mas apesar da insistência, jamais ganhou. Foi a única compatriota do sexo feminino a conseguir a nomeação até 1971 e também foi homenageada pela Santa Sé, devido ao seu trabalho beneficente, coisa que Martina, que se saiba, nunca almejou conseguir, mesmo tendo mandado erigir uma capela como sinal de agradecimento por ter sobrevivido às febres, quando era professora, na Índia. Teve sim, durante algum tempo, uma rua com o seu nome, em Lisboa*.

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A honra da primeira nomeação formal, no entanto, tinha cabido ao dramaturgo João da Câmara (1852-1908) - na imagem, logo em 1901 e apenas uma vez. Seguiu-se, em 1907, João Bonança (1836-1924), que por aí se ficou.

Depois houve um grande interregno, de 26 anos, pois só voltariam a registar-se portugueses designados em literatura no ano de 1933. Foi o poeta António Correia de Oliveira (1879-1960) que quebrou esse jejum. Foi proposto por 20 elementos da Academia de Ciências de Lisboa e reapareceu mais 14 vezes em anos posteriores, mas este recorde de nada lhe valeu.

 

Em 1942 dá-se a primeira das cinco designações de Teixeira de Pacoaes e, de entre os dados já revelados, até 1971, foram estes os escassos portugueses indicados na área da literatura, ainda assim, aquela com maior presença lusitana e onde acabaríamos por vencer, com José Saramago, mas só em 1998, quase um século após a primeira nomeação. Só no futuro saberemos quais e quantas vezes outros escritores portugueses surgiram nesta lista restrita, a partir de 1971.

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Quanto a Martina (na imagem), morreria em dezembro de 1909, aos 62 anos, sem alcançar o reconhecimento desejado. Não deixou filhos, nem testamento, mas no assento de óbito consta o cargo que muitos anos antes ocupara, de professora e diretora do recolhimento de Nossa Senhora da Serra, em Nova Goa, do qual se orgulhava. Talvez cumprindo uma vontade sua, foi fotografada no féretro e enterrada na companhia dos seus amados livros.

 

À Margem

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Entre 1901 e 1971, nenhum compatriota logrou destacar-se com uma nomeação para os prémios da física ou da química, o que atesta a fraca imagem que a investigação nacional tinha nestas disciplinas.

De facto, apenas fomos nomeados também para as categorias de Prémio Nobel da Paz e da Medicina, no qual acabámos por vencer, em 1949, após 18 nomeações.

Foi Egas Moniz (1874-1975) o único português a ser galardoado com o Prémio Nobel da Medicina, pelas suas investigações e descobertas sobre o funcionamento do cérebro humano. Mas não foi o único nomeado nesta categoria. O cirurgião António de Sousa Pereira (1904-1986) foi designado em 1953, pela sua investigação nos domínios da anatomia e cardiologia.

Aldo Castelloni (1874-1971), patologista e bacteriologista, foi nomeado 61 vezes ao longo de 48 anos! E, nada ganhou. Embora italiano, viveu muito tempo em Portugal, onde se exilou após o final da II Grande Guerra. É por isso que as suas últimas quatro nomeações surgem englobadas nas do nosso País.

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Falta ainda referir o único – que se conheça - nomeado português para a categoria de Prémio Nobel da Paz: Sebastião Magalhães Lima (1850-1928) - na imagem. Republicano, maçon, fundador do jornal O Século, foi indicado em 1909, pelo seu trabalho no Gabinete Internacional Permanente Para a Paz, ainda antes de ser deputado e ministro e de ter fundado a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem (1921).

Em 1928, com a mesma veemência que havia usado nos textos contra a monarquia, criticou aquele novo regime que então já oprimia Portugal, limitando as liberdades dos cidadãos.

Não podia prever que tudo ainda estava a começar e que o tal regime só cairia 46 anos depois.

 

Mas isso é outra história…

…………………

*Atual rua Andrade Corvo, perpendicular à avenida Fontes Pereira de Melo, entre esta e a avenida Duque de Loulé.

** Nomeadamente: Vida de Todos os Santos. Escreveu igualmente Duello de Morte. Critica aos livros de Guerra Junqueiro e Padre Senna Freitas.

 

………….

 

Martina Maldonado foi o grande amparo de Maria Clementina Relvas, de cuja difícil vida já escrevi aqui: Os estranhos destinos das filhas de Carlos Relvas   - O sal da história

E aqui: Ainda…Clementina Relvas - O sal da história

 

Fontes

Manuela Poitout, Clementina Relvas e a condição feminina no seu tempo (1857-1934, in revista Nova Augusta, nº 25, Torres Novas, 2013. Agradeço à autora a generosidade de ter partilhado comigo o seu interessantíssimo trabalho de investigação, que vem desmistificar tantos equívocos existentes em torno de Clementina Relvas Relvas.

https://www.nobelprize.org/nomination

https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Madalena_de_Martel_Patr%C3%ADcio

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Gon%C3%A7alves_Zarco_da_C%C3%A2mara

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_de_Sousa_Pereira

https://en.wikipedia.org/wiki/Aldo_Castellani

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sebasti%C3%A3o_de_Magalh%C3%A3es_Lima

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Correia_de_Oliveira

 

António da Silva Pinto, Para o fim : 1908-1909,  Lisboa, A. M. Pereira, 1909. Disponível aqui: Para o fim : 1908-1909 : Silva Pinto, Antonio da, 1848-1911 : Free Download, Borrow, and Streaming : Internet Archive

Brito Aranha,  Diccionario Bibliographico Portuguez, Estudos de Innocencio Francisco da Silva aplicáveis a Portugal e ao Brazil, continuados e ampliados por Brito Aranha, Tomo 20º, 12ºdo Suplemento V-A, Lisboa, Imprensa  Nacional , 1911. Disponível aqui: Baixar - Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (livrozilla.com)

 

Museu da Presidência da República, Convite de Maria Clementina Relvas a Teófilo Braga, PT/MPR/BPARPD/ATB/CX132/025

Arquivo Municipal de Lisboa, Venda do lote de terreno, designado pela letra H, situado na avenida Fontes Pereira de Melo e rua G, a Martina Carolina Reboli de Bulhões, PT/AMLSB/CMLSBAH/FNAJ/001/0051/046.

Arquivo Municipal de Lisboa, Edital da Câmara Municipal de Lisboa que publicita a atribuição da designação Rua D. Martina, à rua G, cortada pela rua Fontes Pereira de Melo, PT/AMLSB/CMLSBAH/CHC/011/018/0038

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Inventário Facultativo, PT/TT/JUD/TCLSB/217657.

Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Registos Paroquiais, Lisboa, São Sebastião da Pedreira, óbitos, PT-ADLSB-PRQ-PLSB50-003-O36

Arquivo da Direção-Regional de Cultura dos Açores, Convite de Maria Clementina Relvas a Teófilo Braga, solicitando a sua comparência no erigir de um túmulo à memória de D. Martina carolina Reboli de Bulhões Maldonado, PT/BPARPD/PSS/TB/132/025.

 

Diário do Governo, 29.12.1899; 02.03.1910, 23.06.1910, nº114, 1911.

 

Imagens

Prêmios Nobel: História, Controvérsias e Conquistas de 2024 – The Bard News

Maria Madalena de Martel Patrício - Maria Madalena de Martel Patrício – Wikipédia, a enciclopédia livre

Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, cadáver de Martina Maldonado, PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/00241

Serões: revista mensal ilustrada, N.º 32, fev. 1908, in João Gonçalves Zarco da Câmara – Wikipédia, a enciclopédia livre

Prof. Egas Moniz – O Nobel Português de Medicina e Fisiologia | Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Sebastião de Magalhães Lima (1851-1928) - Livro "Pela Patria e pela Republica", Porto 1891, em Sebastião de Magalhães Lima – Wikipédia, a enciclopédia livre

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