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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Pândega a valer era na Floresta Egípcia do melhor fogueteiro de Lisboa

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Os seus fósforos eram os preferidos do rei. Das suas oficinas saíram os foguetes mais retumbantes e o fogo-de-artificio mais extraordinariamente brilhante. Nos seus exóticos parques de diversão havia folia até de madrugada.

Toda a gente conhecia José Osti, pioneiro no fabrico de fósforos, fogueteiro e autor dos mais aplaudidos espetáculos de fogo-de-artifício jamais vistos em Portugal. Mas o que o tornava ainda mais digno de nota eram os seus parques de diversão, com nomes enigmáticos e exóticos como Jardim de Vénus, Jardim Mitológico ou Floresta Egípcia, onde a pequena burguesia podia dançar, comer e beber; ver teatro, testar a pontaria e a coragem em vários jogos; apreciar acrobacias que desafiavam da morte e a gravidade, para além de se encantar com sessões de pirotecnia. Tudo com clientela selecionada e cerca de um século antes da Feira Popular.

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Eram recintos vedados em que se pagava para entrar e que, a crer na publicidade, rivalizavam com os que existiam em Inglaterra e França. Lá dentro, as atividades disponíveis tinham uma taxa adicional e primavam pela grande variedade: balouço; cadeiras; flecha; pomba; tiro de pistola; bilhares chineses; velocidade de mão e de pé; jogo da bocha; câmara ótica; tamborini; cavalinhos; pim-pam-pum; volante…e muitos mais divertimentos que hoje em dia apenas podemos imaginar como funcionariam. Depois, havia palcos por onde passavam artistas com algum gabarito, orquestras e grupos de teatro residentes.
Para os audazes, havia a montanha russa e o “looping-the-loop”, uma espécie de “poço da morte” de origem americana que se estreou em Lisboa pela mão de Osti e, cinquenta anos depois, foi apresentado como grande novidade, fazendo furor no Coliseu dos Recreios.

 


Não faltavam “vinho e petiscos a preços cómodos, café, cerveja e todas as bebidas próprias de um bom fornecimento”, para animar a caixeirada* que, ao domingo, ali “polkava e mazurcava desenfreadamente”, rodopiando por entre os vários quiosques e o arvoredo, namoriscando ou passeando a prole no único dia de descanso semanal.

 

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A clientela era escolhida, porque popular não queria dizer popularucho. Para afastar os “rurais” e outros que tais, proibia-se a entrada a quem se apresentasse de jaleca, capote ou lenço, bem como a todos os que não estivessem convenientemente vestidos, sendo que, em dia pré-definido da semana, as portas estariam abertas “a todas as classes da sociedade”, embora mantendo “a maior decência e boa polícia” aos que honravam o estabelecimento com a sua presença.


José Osti geriu pelo menos três destes animados espaços, misto de feira e recinto de espetáculos. O primeiro foi o Jardim de Vénus, que abriu portas em 1849 lá para os lados do Campo Grande. Seguiu-se o Jardim Mythológico (1851), na rua Direita do Calvário (Alcântara).

Ali existim “32 ruas com arvoredos”, por onde se distribuíam os recreações e que constituíam um “dos mais pitorescos” conjuntos de Portugal. Nem faltava uma casa de pasto do conhecido cozinheiro Matta, que servia “com lista pelos preços de Lisboa”.

Poderia pensar-se que estavam reunidas condições para ser um sucesso, mas ambos duraram pouco, talvez porque não eram suficientemente centrais para que a afluência fosse numerosa.

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O mais célebre e grandioso destes parques foi a Floresta Egípcia, que funcionava nas traseiras do Palácio Alagoa e chegou a ter um serviço de carruagens que transportava gratuitamente a clientela a partir da baixa da cidade.

A entrada fazia-se por um insuspeito portão no número 183 da rua da Escola Politécnica, que se abria para um terreiro sombreado e profusamente decorado com esfinges e bustos em gesso, palmeiras e lagos. No teatro, pretensiosamente, batizado de “sala de cristal” apenas porque era totalmente envidraçado, podia assistir-se a comédias teatrais, operetas e até óperas e outras composições musicais, “convenientemente estropiadas na execução e na ortografia”.
Outras atrações que reuniam muitas preferências eram o lançamento de aeróstatos de grandes dimensões e, claro, a especialidade do “dono da casa”, o fogo-de-artifício, que tanto fascinava a “arraia miúda”, como as classes dominantes e até a família real (ver À Margem).
A Floresta Egípcia sobreviveu pouco tempo após a morte do seu criador (1858), seguindo o fado deste tipo de espaços de existência efémera – os recintos de Osti haviam sucedido ao Tivoli da rua da Flor da Murta e ao Jardim Chinês, ao Combro, que tinham falido em 1841 - porque a assistência renovava-se pouco e, moderna como era, só era fiel a uma novidade até aparecer outra.

 

À Margem

José Osti era italiano, mas cedo se radicou em Portugal, casando com uma portuguesa, com quem teve dois filhos, que terão continuado parte do seu trabalho. Era um homem de grande criatividade, iniciativa e persistência, tantos foram os desaires e outros tantos os novos negócios que lançou. Não havia festa de arromba que não tivesse o seu fogo-de-artifício, no Passeio Público**, pelos santos populares ou para mera ostentação, como fazia o Conde de Farrobo, que contratava Osti para impressionar a Lisboa chique de então. Os seus “rutilantes improvisos pirotécnicos eram verdadeiras belezas”, que permaneceram na memória dos que assistiam e mereceram, pela espetacularidade, numerosas referências na literatura da época.
Osti é também apontado como o introdutor dos fósforos no nosso País e, em 1842, já tinha uma oficina onde produzia palitos de lume e foguetes. Mão criminosa pegou-lhe fogo, mas Osti não desanimou, porque, três anos depois, estava a registar a patente de um misto fosfórico que tinha a particularidade de não cheirar mal, grande inconveniente dos palitos de lume daquela época. Enquanto arriscava na área das diversões, como já vimos, montou também novos estaminés para fabrico de fósforos, foguetes e fogo-de-artifício, em Santos e Alcântara.

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O apuro do que produzia era tal, que chegou a ter encomendas do estrangeiro e conta-se que D. Fernando II só usava fósforos Osti, prevenindo-se com eles quando viajava, porque, na sua opinião, em nenhuma parte encontraria melhor.
Ironicamente, esta qualidade acabaria por ficar associada a um acidente ocorrido na Floresta Egípcia. Segundo os relatos, uma caixa de fósforos Osti ter-se-á incendiado espontaneamente no bolso das calças de um rapaz que se divertia naquele parque de diversões. Aterrorizado e na ânsia de ajudar, um amigo que o acompanhava atirou o infeliz para dentro de um lago, onde morreu afogado.
Mas isso é outra história…

 

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Palácio Alagoa, na rua da Escola Politécnica, e portão que dava entrada para a Floresta Egípcia.

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*Caixeiros, empregados no comércio.

**Demolido para construir a avenida da Liberdade.

…………………

Já aqui antes falei da produção de fósforos e de como o Estado quis negociar com ela.
Enquanto a pequena burguesia se divertiam nas feiras de José Osti, as classes dominantes passavam pela casa de Dona Cláudia, ou ascendiam aos seletos salões de Maria Cruz, tão picantes, quanto intelectuais.
………………..
Fontes
Depois do terremoto – subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa II, de Gustavo de Matos Sequeira; Academia de Ciências de Lisboa; Lisboa-1917. Disponível em:
https://www.yumpu.com/pt/document/read/12458482/depois-do-terremoto-subsidios-para-a-historia-dos-bairros-
e
https://archive.org/stream/depoisdoterremot02sequuoft/depoisdoterremot02sequuoft_djvu.txt

Sumário de vária história, por J. Ribeiro Guimarães – 1875. Disponível em:
https://www.yumpu.com/pt/document/read/13302724/summario-de-varia-historia-narrativas-lendas-biographias-
Estroinas e estroinices – Ruína e morte do Conde de Farrobo, de Eduardo de Noronha; João Romano Torres e Cª Editores – Lisboa; composta e impressa na empresa de Manuel Lucas Torres – Lisboa 1922. Disponível em Forgotten Books
file:///C:/Users/Cristiana%20user/Downloads/EstroinaseEstroinices_11153456.pdf
Lisboa d’outros tempos I Figura e scenas antigas, de Pinto de Carvalho (Tinop); Livraria de António Maria Pereira, Editor – 1898. Disponível em https://www.yumpu.com/pt/document/read/12806580/lisboa-doutros-tempos-por-pinto-de-carvalho-tinop
Publicador Maranhense
Ano XVI; nº58 – 13 mar. 1858
Disponível em http://memoria.bn.br/pdf/720089/per720089_1858_00059.pdf
Cadernos do Arquivo Municipal
Vol.ser 2 nº.6 Lisboa dez 2016
Artigo de João Figueiroa Rego.
Disponível em :
http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-31762016000200004

Revista Popular – Semanário de Literatura e Indústria vol. I
Nº 23 – 1849
Disponível em:
https://books.google.pt/books?id=UeC3N8GNO3AC&pg=RA2-PA184&lpg=RA2-PA184&dq=%22jose+osti%22&source=bl&ots=0ssv2beFVW&sig=ACfU3U2-Do-oPU7mDz9tT5xSOdATRo0O-A&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwjp9L68jbnoAhVfBWMBHaMIBawQ6AEwE3oECAwQAQ#v=onepage&q=%22jose%20osti%22&f=false

Memórias de Castilho, por Júlio de Castilho; vol. IV – de 1841 a 1857 – cont do nº13 pag. 962 vol. XI; in O Instituto – Revista Científica e Literária. Vol XLI – 3ª série nº 1 - jun. 1893
Disponível em:
https://books.google.pt/books?id=HlAxAQAAMAAJ&pg=PA73&lpg=PA73&dq=%22n%C3%B3s+ouviamos+dizer+que+hercules+era+um+cigano+muito+alto+e+grosso%22&source=bl&ots=dkRw11IMLH&sig=ACfU3U0K9fFhsxliuUK0liyyQ-uZ2lEVRA&hl=pt-PT&sa=X&ved=2ahUKEwim9M_DgcPoAhUOZcAKHcSIBaYQ6AEwAHoECAEQAQ#v=onepage&q=%22n%C3%B3s%20ouviamos%20dizer%20que%20hercules%20era%20um%20cigano%20muito%20alto%20e%20grosso%22&f=false

Lisboa Antiga, de Júlio de Castilho – Bairros Orientais; 2ª edição; Vol. X; S. Industriais da C.M.L. – 1937.
Disponível em:
http://purl.pt/30262/4/hg-15990-v/hg-15990-v_item4/hg-15990-v_PDF/hg-15990-v_PDF_24-C-R0150/hg-15990-v_0000_capa-capa_t24-C-R0150.pdf
Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Paróquia Santos-o-Velho
Paróquia de São Mamede
Sistematizados em Registos Paroquiais Portugueses para Genealogia
www.tombo.pt

https://geneall.net/pt

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=9866

Imagens
Pinturas de Jean Bérraud
Disponíveis em:
www.wikipedia.com
http://www.artnet.com/artists/jean-b%C3%A9raud/le-bal-public-qXG1CjbYID8-nFF1NSE_vA2
https://www.bimago.pt/reproducoes/jean-beraud/the-gardens-of-paris-or-the-beauties-of-the-night-113007.html

…………………….
As ilustrações, reprodução de pinturas de Jean Bérraud, são meramente ilustrativas da época e do tipo de espaços descrito, mas em França.

3 comentários

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    CV 19.04.2020

    Olá! Pois, a nota sobre o passeio público foi só para contextualizar, porque não era esse o tema. Quanto à outra questão do nome dos recintos, não digo que a inspiração para o último não fosse o Egyptian Hall, embora fossem divertimentos de tipo bem diferente. Parece-me que o pretexto era o nome soar exótico, enigmático... Porque, em termos de oferta, penso que se assemelhava mais ao Bal Mabile, de Paris. E, sim, os recintos estavam decorados a preceito, como eu refiro em relação à floresta egípcia. Dos outros não encontrei descrição tão pormenorizada, mas admito que a decoração também fosse, de alguma forma, ao encontro do tema, nomeadamente com estatuária.
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    mitologia 19.04.2020

    Hum...... agora que se pensa nisso, esse tipo de decoração e evento parece ter sido muito popular na época, e depois começou a desaparecer muito rapidamente na segunda metade do século XIX, com o Jardim de São Pedro de Alcântara a representar provavelmente o último exemplo lisboeta, com bustos de figuras do passado, deuses, etc. O que se terá passado, alguma ideia? Que diversões vieram ocupar o lugar desses espaços e eventos desaparecidos?
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