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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Pela imprensa (17): vício sem malefício, nem vício é

 

tabaco sem nicotina ilustracao portug marco 1905.J

 


Café sem cafeína; leite sem lactose, nem gordura; bolachas sem glúten; tabaco sem nicotina...Intolerâncias à parte, esta mania de manobrar os produtos de forma a que possam ser consumidos já limpos dos seus componentes inimigos da saúde parece algo dos tempos modernos, mas vem de longe. É velha esta vontade de querer pecar sem culpa ou castigo. Tabaco sem nicotina soa a grande novidade, mas há muito que se apregoava ter descoberto tal milagre.
Este anúncio de 1905 divulgava isso mesmo. O depósito de J.J. Marques Júnior, na rua da Prata, 35,* vendia estes "misteriosos" tabacos que, pela imagem do senhor meio esvoaçante, poderíamos pensar que, não contendo nicotina, conteriam, quiçá, substâncias mais dadas a devaneios, "ervinhas" para rir; pozinhos destinados a inebriar os sentidos e provocar essa sensação de leveza que o sujeito do anúncio nos apresenta.
Efetivamente, não sei que tipo de tabacos disponibilizava este estabelecimento, mas prometiam, pelo menos, deixar o consumidor com ar de ter sido apanhado num grande vendaval...ou numa grande pândega.
O tabaco propriamente dito entrou na Europa pela mão dos espanhóis. Esta planta originária do continente americano foi rapidamente difundida porque se pensava ter benefícios terapêuticos. As folhas podiam ser mascadas, inaladas (depois de moídas) e fumadas, em cachimbo ou enroladas – parece que esta última modalidade, que se generalizou a partir da I Grande Guerra, foi "inventada" pelos marinheiros dos navios de transporte de tabaco, que começaram por enrolar em papel os fragmentos que se libertavam dos fardos.
Só em meados do século XX surgiram as primeiras investigações científicas que relacionavam o tabaco com determinadas doenças, como o cancro no pulmão.

james dean.JPG

Como muito do que apazigua as nossas ansiedades e stresses – do café, ao açúcar – este é um negócio altamente lucrativo e isso explica que, a par de campanhas para que se abandone o vício, tão nocivo quanto dispendioso, se somem experiências para tornar o tabaco menos mau para a saúde, dos cigarros sem fumo, aos light, das modificações genéticas na planta, ao tabaco aquecido...
Nada de espantar: já nos anos 60 se anunciava ter encontrado a resposta para fumar sem perigo. A descoberta passava por um enxerto da planta do tabaco em tomateiros, que produziam folhas sem nicotina...Não pegou, mas percebe-se: um vício sem malefício, nem pode ser considerado um vício. Perde o encanto. O melhor mesmo é deixar o tabaco para quem quer morrer cedo e dedicar-se a outras atividades, como...roer as unhas???

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*Situava-se no quarteirão em frente à atual 2ª Esquadra da Baixa Pombalina da PSP.

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Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/
Illustração Portugueza
2º ano; nº71 – 13 mar. 1905

http://memoria.bn.br/DocReader
Jornal A noite
Ano LII, edição nº17637 - 26 jun 1964

 

http://www.iasaude.pt/ucad/index.php/substancias-psicoactivas/tabaco

https://pt.wikipedia.org/wiki/Tabaco

http://lounge.obviousmag.org/entre_outras_coisas/2012/12/o-glamour-nas-antigas-propagandas-de-cigarro.html

https://www.google.com/maps

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