Pela imprensa (25): não digas desta circassiana não beberei

Uma beleza inigualável proporcionada pelos negros cabelos que emolduram o rosto delicado, de pele branca e macia. É este o argumento de venda da Água Circassiana, ou das diferentes mistelas vendidas sob este nome. É o ideal de beleza explorado por laboratórios e donos de circos; perseguido por homens ávidos de erotismo e senhoras ansiosas por rejuvenescer. É esta a imagem das circassianas idolatrada no ocidente e que foi a sua desgraça.

Água Circassiana: era sinónimo de cabeleira farta, vigorosa, escura como breu ou da cor primitiva do utilizador. Um produto concebido a pensar nas damas, mas suficientemente versátil para atrair alguns cavalheiros hesitantes em aceitar as cãs próprias da idade. Entre os clientes estavam as principais casas reais da Europa, diziam os seus divulgadores e, garantiam as más-línguas, estava o superministro português Fontes Pereira de Melo, responsável pelo extraordinário incremento das obras públicas, das estradas, ao comboio – muito, mas muito longe ainda das ideias do TGV! – durante o período da Regeneração, em meados do século XIX.
A Portugal, a Água Circassiana terá chegado pelo menos nos finais da década de 1860, pela mão da Herrings & Cª, firma “de grande fama e extração fabulosa”, “inventores” com instalações no Rossio, nºs 60 e 61, e venda em numerosas farmácias de Lisboa e Porto. É fácil de calcular que tão prodigioso preparado, ainda mais sem composição química conhecida, tenha sido rapidamente copiado.

No mercado surgiram outras “marcas”, que competiam com o líquido dos senhores Herrings, o que muito os aborreceu e prejudicou. Se eram tão eficazes com o “original”, não sabemos, nem sequer se o dito surtia o efeito desejado, até porque não me foi possível descobrir mais informação sobre estes empreendedores.
É claro que, quando confrontados com um tão admirável produto, os céticos tendiam a duvidar das suas qualidades. Esse foi o caso de Eça de Queiroz, que escarneceu da utilização desta água especial. Também ridicularizou a imagem adorada da mulher circassiana, “mais branca que a Lua cheia, mais airosa que os lírios”, que, afinal, coitada, na sua história, não passava de uma envelhecida e miserável prostituta.
É que, precisamente na mesma época em que o Ocidente inventava produtos que se aproveitavam dessas características tão exóticas, quanto míticas, os circassianos – homens e mulheres - eram exterminados pelo Império Russo, que invadiu os territórios deste povo (grupos étnicos normalmente designados adigues ou adiguésios) no norte do Cáucaso, matando cerca de 400 mil e expulsando mais de 1.2 milhões das suas terras, numa verdadeira limpeza étnica que os fez dispersar pelo mundo e, efetivamente, desaparecer do mapa.
As mulheres, essas, havia muito que eram vendidas, até pelas próprias famílias, como escravas sexuais, especialmente entre os turcos, cujos haréns integravam. Outras fugiam e trabalhavam como atrações em circos ocidentais, fazendo furor pela estranheza que o seu aspeto suscitava, com a cútis pálida contrastante com o cabelo preto e encarapinhado.
Fontes
Hemeroteca Digital de Lisboa
Vida Artistica : Semanario de Artes e Lettras, Ano 2, n.º 47, 30.04.12
A Paróquia, nº74, 09.06.1904
Biblioteca Nacional de Portugal, em linha
Diário Illustrado, 02.06.1881
Diário ilustrado, 03.07.1881
Boletim do Clero e do Professorado, nº604, 21.11.1874
Carlos Reis e Maria Eduarda Borges dos Santos, Edição crítica de A Relíquia, de Eça de Queiroz, Imprensa Nacional, 2021. Disponível aqui: https://imprensanacional.pt/wp-content/uploads/2022/09/A-Reliquia._miolo_AF_25_11_2021.pdf
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fontes_Pereira_de_Melo
https://pt.wikipedia.org/wiki/Circassianos
Imagem principal:
Jean Léon Gérome, “Dama circassiana com véu” cerca de 1876, óleo sobre tela, lote 42, Christies Sale 7587 2008
Encontrada aqui:
https://journals.openedition.org/viatourism/1746?lang=it
