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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Portugal, com um pé do outro lado do mundo

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Durante mais de um século, os portugueses foram o principal grupo de imigrantes a chegar ao Brasil. Vagas consistentes, sobretudo de homens jovens, muitos sem documentos, foram em busca de uma vida melhor do outro lado do oceano. Estima-se que tenham sido bem mais de dois milhões a fazer essa opção de vida, chegando a ser vistos como uma ameaça pela população brasileira, que se manifestava contra a “invasão” protagonizada pelo “povo irmão”, que dominava os trabalhos no comércio dos grandes centros urbanos. Soa-lhe familiar?

Desde a sua descoberta, por Pedro Álvares Cabral, sempre houve predominância de portugueses entre os homens livres a viver em solo brasileiro: colonos, degredados que ali cumpriam pena, garimpeiros seduzidos pela febre do ouro de Minas Gerais, investidores e, claro, elementos da engrenagem estatal.

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Durante o período colonial e até à independência, em 1822, os portugueses dominavam as funções e cargos públicos. Eram instruídos e, normalmente, estavam de passagem, demorando-se apenas o essencial para progredir na carreira.

Depois começaram a chegar os mais pobres. Milhares de rapazes aportavam ao Rio de Janeiro e outros pontos estratégicos, grande parte sem documentos, escondidos entre a carga, fugindo ao serviço militar ou à miséria que Portugal tinha para oferecer durante o século XIX e início do seguinte.

Com o fim da escravatura, tornou-se necessário substituir essa mão-de-obra de baixo estatuto e foram os portugueses a assumir tal fardo. As tarefas agrícolas, no entanto, não atraiam estes imigrantes, que tentavam escapar das fazendas de café, como se tinham escapulido dos campos da sua pátria, talvez porque já conhecessem a dureza dessas tarefas.

Assim, concentravam-se nas cidades. Atrás do balcão de cada loja brasileira, a servir nos botequins ou a atender nas padarias, leitarias, mercearias… havia sempre um ou mais portugueses, que tinham rumado àquelas paragens tropicais, normalmente ao encontro de algum compatriota ou de um familiar chegado antes e já estabelecido.

emigrantes europeus no patio de uma hospedaria no

Não havia caixeiro que não fosse luso, mas também os havia em grande número na pesca ou como criados de servir.

Sujeitavam-se a trabalhar sem receber, dormindo no mesmo chão que calcorreavam sem descanso durante o dia.

Sonhavam ganhar a confiança do patrão, quiçá tornar-se seu sócio ou sucessor. E, de facto, muitos alcançaram tal desiderato, ficando com o negócio por herança ou casamento com a filha do dono da casa.

Este “monopólio” das profissões ligadas ao comércio foi crescendo sempre de forma constante e alcançou tais valores que muitos brasileiros se sentiam preteridos, fazendo crescer um certo ódio e rejeição para com os imigrantes portugueses.

Registaram-se, aliás, em diferentes alturas, manifestações, episódios de tumulto e violência contra os forasteiros.

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Por cá, este êxodo só agravava a situação calamitosa do País, sem braços para trabalhar nos campos, já que também internamente muitos optaram por rumar às cidades, procurando ofício ou engrossando a incipiente indústria.

Em certas zonas do Minho, por exemplo, a população resistente tornou-se predominantemente feminina, pois eram poucas as mulheres que também emigravam. Estas eram sobretudo pobres, indocumentadas e ocupavam-se no trabalho doméstico.

O Brasil ansiava por esta mão-de-obra, chegando a subsidiar a chegada de imigrantes, alemães, italianos, espanhóis e até japoneses.

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Os portugueses, voluntariamente, nunca deixaram de ser os mais numerosos. Durante mais de um século, entre 1837 e 1968 estima-se que, legalmente, tenham entrado mais de 1.7 milhões naquela antiga colónia, mas os números foram bastante superiores, sabendo-se da presença de tantos clandestinos e da falta de estatísticas para a primeira parte do século XIX.

O Brasil foi também, até aos anos 60 do século XX, o principal destino da emigração nacional. Só depois os destinos europeus começaram a competir com esta relevância e apenas na década de 80, se iniciou o movimento inverso, com os brasileiros a olharem para Portugal como opção de vida.

Muitos dos que agora nos procuram são, aliás, netos de portugueses que fizeram o seu percurso no país-irmão.

 

À margem

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Cerca de meio milhão de africanos foram levados à força para ajudar na construção do Brasil, chegando a ser a população dominante, em número, claro, porque continuavam a ser a fatia mais desvalorizada da escala social. Mesmo depois da ilegalização da escravatura, o tráfico continuou só tendo cessado após 1850. O fim deste expediente criou uma avassaladora fome de mão-de-obra entre as elites brasileiras, quer para todas as numerosas tarefas que compõem a vida urbana, mas especialmente, para os engenhos de açúcar, as fazendas de café e outras produções agrícolas daquele imenso território.

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O Estado tentou de tudo para aliciar força de trabalho das mais variadas origens e colonos, nomeadamente dos Açores e da Madeira, mas também de outras paragens. Qualquer europeu era bem-vindo, subsidiando-se a sua chegada.

Os resultados, no entanto, não foram animadores, até porque as condições “oferecidas” pelos patrões eram em quase tudo semelhantes às da escravatura, com alimentação insuficiente e de má qualidade, condições duríssimas de trabalho e castigos corporais. A única diferença, é que estes novos trabalhadores podiam abandonar esta vida e, de facto, muitos fizeram-no.

A maioria dos portugueses foram peças anónimas na voragem de crescimento daquele grande país, mas também os houve com sorte e engenho de criar fortuna. Por cá, davam nas vistas e ficaram conhecidos como brasileiros de torna-viagem.

Mas isso é outra história...

 

Fontes

Rosana Barbosa, Um Panorama Histórico da Imigração Portuguesa para o Brasil, in ARQUIPÉLAGO • HISTÓRIA, 2ª série, VII , Universidade dos Açores, 2003. Aqui: https://repositorio.uac.pt/entities/publication/70186b62-c113-424f-853a-10f5130711eb

https://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/portugueses.htm

https://jornal.usp.br/universidade/independencia-do-brasil-mudou-objetivos-da-emigracao-portuguesa/

https://oglobo.globo.com/brasil/historia/no-seculo-xix-sonho-de-portugues-era-ser-brasileiro-16307678

https://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_portuguesa_no_Brasil

https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasileiros_de_torna-viagem

https://brasilescola.uol.com.br/brasil/imigracao-no-brasil.htm

https://historiadesaopaulo.wordpress.com/wp-content/uploads/2010/12/f14.png

https://www.researchgate.net/figure/FIGURA-2-Colheita-de-cafe-na-fazenda-do-coronel-Schmidt-inicio-do-seculo-XX-Acervo_fig1_325705804

Imigração no Brasil: causas, história, atualmente - Brasil Escola

O Trabalho Escravo no Brasil (1500 – 1888) - TST

Hemeroteca Digital de Lisboa

Brasil-Portugal, 16.02.1899