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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Primeira montada do “Califa” era um burro dado a coices

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Nascer numa família de ricos aficionados terá contribuído muito para o sucesso de João Branco Núncio, mas a dificuldade dos seus primeiros cavalos foi determinante para a categoria ímpar que o cavaleiro atingiu.

 

João Branco Núncio teve, ao longo da sua extensa e bem-sucedida carreira, muitos animais de grande beleza e inteligência. As suas primeiras montadas terão sido bem menos nobres, mas foram decisivas para o seu futuro triunfo como equitador, já que a pouca aptidão que demonstravam para o toureio obrigou, desde criança, a um empenho acrescido daquele que viria a revolucionar o toureio a cavalo em Portugal.

O pequeno João Núncio, com sete ou oito anos, tinha ficado incumbido de, diariamente, recolher o burro de serviço à nora da horta. Foi nessa tarefa, não podendo contar com a colaboração do animal, que era teimoso, muito dado a coices e cangochas*, que primeiro tentou domesticar um equídeo. Foi também com o mesmo jumento que fez a lide de estreia, na herdade da Gaxa - entre Alcácer do Sal e Santa Susana - obrigando uma vitela a investir, perante os aplausos dos empregados da quinta.

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Em pouco tempo, a antiga e turbulenta montada foi substituída por um cavalo a sério e, “não se fazia agarra ano nenhum que não houvesse, no final, a corrida de duas ou três bezerras” pelo menino João. De tal forma que, com apenas 13 anos, lá se mostrou como amador na corrida de S. João, em Évora. Lidou dois touros com o cavalo Teodoro, que originalmente tinha um anormal pavor das investidas.

Idêntico medo tinha a montada seguinte, o “Garoto”, extremamente nervoso e com terror do touro.

Todos os entendidos tentaram demover o toureiro de insistir no seu ensino, tal a dificuldade da missão.

Ora, foi logo aqui que o jovem Núncio mostrou um entendimento diferente: com inabalável paciência, total firmeza, persistência e abnegação, o toureiro transformou o “Garoto” no seu par ideal e autêntica estrela da arena. Tristemente, o animal viria a morrer em 1923, poucos dias antes de João Núncio obter a alternativa, no Campo Pequeno.

Foi também a partir deste ponto que o “califa de Alcácer”, como lhe viriam a chamar, provocou “um verdadeiro escândalo” nas arenas portuguesas, até então, “pacatas e banais”. Tinha-se acabado a forma tradicional e previsível de tourear.

É que o toureio de João Núncio, “não respeita os cânones” nem o que era a “normal” lide equestre. O simples, o óbvio, a força bruta, nada disso era para João Núncio. A sua figura, de aparência quase frágil, tinha total domínio do cavalo e da situação.

Nele tudo era diferente. Tudo era agilidade, subtileza, suavidade, ligeireza. Porém com muita raça e um dramatismo capazes de provocar no público uma inigualável emoção, pelo enorme perigo persentido. Toureava a cavalo como se este se convertesse nas suas pernas. Com beleza e arte, parecendo dançar e expondo-se ao máximo na cara do touro: toureiro e equitador feitos um só.

Tanto submetia os cavalos à sua vontade, como conseguia lidar com igual desenvoltura os touros bravos e os mansos, estes bem mais complexos, porque é preciso arriscar muito – e bem – para os fazer investir.

Para muitos, João Branco Núncio, nascido em Alcácer do Sal a 15 de fevereiro de 1901, foi o maior cavaleiro tauromáquico que Portugal já viu.

Mas, não se pense que os astros se alinharam para que assim fosse.

É certo que pertencia a uma família de ricos aficionados, criadores de cavalos e touros…Mas, teria sido tão excecional se não se tivesse dedicado, inteiramente e desde tão novo, a esta sua paixão? Teria sido tão extraordinário se não tivesse que lutar tanto para obter das suas primeiras montadas a “alma” que não mostravam ter?

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À margem

Em finais do século XIX e início do século seguinte, a família de João Branco Núncio era das mais importantes e influentes da região, sendo também reconhecida pela sua afición e ligação efetiva à festa brava. O avô paterno, Joaquim Mendes Núncio, já criava touros de lide, tradição que perdurou pelas gerações seguintes. O avô materno, João Alves de Sá Branco - já falei do seu assassinato aqui - foi administrador do concelho de Alcácer do Sal, era tido como grande entendido em tauromaquia e movia-se nas mais altas esferas do País. Tão ilustre família, para mais detentora de riqueza e vastidão de terras, mas inserida num meio desfavorecido e pobre, acabaria por suscitar hostilidade nos tempos quentes dos pós 25 de abril. A casa de João Branco Núncio foi ocupada e os seus bens confiscados. A 26 de janeiro de 1976, o coração traiu-o enquanto montava a cavalo.

Morreu quando treinava um regresso às arenas, anunciado pela necessidade de providenciar o seu próprio sustento.

Mas isso é outra história…

…………..

*Salto para o ar dado pelo cavalo, normalmente com intenção de se livrar do cavaleiro, no qual o cavalo arqueia o dorso e se recebe com as mãos hirtas e a cabeça muito baixa.

 

 

Fontes

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/02/05/001

Amarel…y Branco; João Núncio (O Bandarilheiro equestre), Lisboa 1930

 

Glossário de equitação

https://moodle.fct.unl.pt/mod/glossary/view.php?id=60399&mode=letter&hook=C&sortkey=&sortorder=

 

https://correiodoribatejo.com/evora-homenageou-mestre-joao-branco-nuncio/#.Ws9zMcuWwbo

 

 

2 comentários

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    Anónimo 28.07.2018

    Muito obrigada!
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