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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Quando a bela Comporta era uma espécie de “África metropolitana”

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Em pouco mais de um século, passou de antecâmara do inferno a paraíso na terra. Os escravos e degredados foram substituídos pela nata da sociedade, rendida a paragens tão desejadas hoje como o foram temidas e desprezadas num passado não muito distante.

Huuummm, Comporta: praias maravilhosas, areais e mar azul a perder de vista; gente bonita, festas de verão...Huuummm, Comporta: terra de degredados e outros condenados, uma espécie de “antecâmara do inferno”, onde a vida era de extrema dureza e nem a morte era pacífica, porque não havia sequer cemitério onde se pudesse descansar em paz.


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Era esta a imagem, quiçá exagerada, que os portugueses tinham daquela que é hoje uma das mais badaladas e concorridas áreas turísticas do País. Até aos anos 20 do século passado, efetivamente, a Comporta era constituída sobretudo por areais estéreis, terrenos incultos e pantanosos, só frequentados por quem a isso era obrigado, como os escravos da Guiné, para ali enviados por se supor serem mais resistentes à malária, mas que “caíram que nem tordos”, porque aos mosquitos pouco interessa a cor da pele; ou os degredados deixados a cumprir pena antes deste tipo de condenação passar a ter como destino preferencial as colónias ultramarinas*.

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Efetivamente, a Comporta chegou a ser denominada de “África metropolitana”, tão difícil era considerada a vivência naquela zona do concelho de Alcácer do Sal, “onde se entrava já contaminado de sezões em companhia de milhões de mosquitos traiçoeiros e venenosos”.
Estradas não havia, o trajeto de barco a Setúbal demorava hora e meia e, no Inverno, a zona chegava a estar isolada durante semanas.

Não admira que os poderes públicos ali nada investissem e que até os representantes do Estado se recusassem a efetuar diligências em tão remotas e esquecidas paragens.

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Os poucos habitantes viviam em cubatas miseráveis e nem depois de mortos podiam descansar em paz, pois não existia – ainda hoje não existe – sequer um cemitério onde pudessem ser enterrados, ou caixões para uma “transição” mais digna. Os que ali pereciam eram invariavelmente enrolados em serapilheira e atados ao dorso de um burro, levado pela arreata ao cemitério mais próximo, a 15 quilómetros de distância, em Montevil, onde, finalmente, podiam ser depositados em campo sagrado.
Não havia médico, correio ou outra força de segurança para além os guardas dos serviços florestais.


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O denominado Paul da Comporta era uma região inóspita e “quase inabitável”, onde, no entanto, em finais do século XIX já se extraía junco, palha, turfa e sobreiros, produtos para reduzir a cinza, usados como combustível. E, claro, já se pescava, num mar sempre rico mas que pouco atenuava a vida numa região onde, por ser tão “primitiva e desértica”, “só se podia contar com o auxílio divino”.

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Em 1925 tudo mudaria. A Atlantic Company Limited** adquiriu os 15.700 hectares incultos de Pera e Comporta, encravados entre os concelhos de Alcácer do Sal e Grândola, que haviam sido da Casa do Infantado e depois da Companhia das Lezírias do Tejo e do Sado, transformado-os, progressivamente, numa das mais importantes produtoras orízicolas do país.

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Mesmo antes da chegada das preciosas águas da barragem Pego do Altar, a empresa com capitais portugueses e ingleses tratou de introduzir novas técnicas de cultivo que ali tiveram sucesso.

Transformou os pântanos em arrozais, derrubou as cubatas e substituiu-as por casas para os trabalhadores, construiu celeiros, oficinas, silos, cantina, padaria e escola. Mandou plantar pinheiros e outras árvores que amenizassem a paisagem e o ar.

Nos anos 40, a beleza da praia, talvez “a maior e mais serena” do País, era já admirada pelos poucos que a visitavam, vaticinando-se que, num futuro próximo, pudesse originar “um desenvolvimento extraordinário” também no turismo.
Assim foi.

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A família Espírito Santo, que desde 1958 passou a deter a totalidade da herdade - embora com um interregno durante a época em que esta foi nacionalizada, no pós 25 de abril – seria mentora de outra grande transformação.


A partir de 2003, este portento agrícola é convertido em poiso do jet set e, embora os arrozais se mantivessem, aliados à vinha e aos hortícolas, passaram a ser outro tipo de “culturas”, mais urbanas, a dar nas vistas.
Com o descalabro do Grupo e a venda das terras, antes tão desprezadas e hoje tão desejadas, abre-se novo capítulo e fazem-se apostas sobre o que se segue.

À Margem
Noudar, no atual concelho de Barrancos, no Alentejo; Lagos, Sagres, Silves, Tavira, Alcoutim e Castro Marim, no Algarve; mas também, ainda que de forma menos constante, Linhares, Pinhel, Castelo Branco, Guarda, Trancoso, Moncorvo e Bragança gozaram, em diferentes épocas da história de Portugal, de estatuto especial que as transformou em terras sem lei, onde fugidos da justiça encontravam “asilo”, ou colónias penais, onde os condenados cumpriam as suas penas e, em simultâneo, contribuíam para o repovoamento de áreas pouco atrativas para o português comum. Nos denominados “coutos de homiziados”, podia-se comutar as penas de prisão ou degredo para o Ultramar em exílio forçado em território da metrópole, o que acabava por ser vantajoso para o Estado e para os degredados, que fugiam à morte certa em África ou no Oriente, à mercê de climas extremos e doenças exóticas. A coroa beneficiava da colonização interna, ao sabor das necessidades de povoamento ou defesa, mas também, por exemplo, suprindo a falta de indivíduos de uma determinada atividade para a qual a terra tinha natural vocação. Foi o que aconteceu em Portimão, por exemplo, que serviu para acolher os pescadores condenados por praticamente todos os crimes, que ali colmatavam a escassez de mareantes “indígenas”.
Mas isso é outra história...

…...
*Li haver memória oral da Comporta ter sido uma colónia penal, mas não encontrei fontes que o confirmassem efetivamente.
** Os diretores William A. Tait, Franck Jeatrunes e Jorge Nunes de Matos; o administrador delegado João José Soares e, depois da morte deste, Manuel José Soares Mendes, são apontados como principais impulsionadores desta mudança.

…........
Fontes
Arquivo Municipal de Alcácer do Sal
Jornal «O Setubalense», suplemento de 4 de Agosto de 1934.

Pedro Muralha, Monografias alentejanas, Imprensa Beleza, Lisboa, 1945

Património Orizícola e Turismo na Herdade da Comporta, de Rafael Alexandre Carvalho Ferreira; dissertação para a obtenção do grau de mestre em Empreendedorismo e Estudos da Cultura; ISCTE – IUL Instituto Universitário de Lisboa, outubro 2017.


Controlo populacional e erradicação da malária; de Vítor Faustino, citando Dias 2001, 90. Disponível em https://epdf.pub/a-circulaao-do-conhecimento-medicina-redes-e-imperios.html


Coutos e terras de degredo no Algarve - Castro Marim, Lagos e Sagres, subsistiram até ao séc. XIX como locais de refúgio e de exílio, de José Carlos Vilhena Mesquita; Universidade do Algarve – Faculdade de Economia

Imagens
Arquivo Municipal de alcácer do Sal
PT/AHMALCS/CMALCS/JJR/01/02/02/002
Álbum Alentejano - Apêndice do Baixo Alentejo; Pedro Muralha; 1937

Arquivo Pessoal de Fernando Horta em:
https://www.sabado.pt/vida/detalhe/a-incrivel-historia-da-proprietaria-do-restaurante-dona-bia-na-comporta
 
http://www.herdadedacomporta.pt/pt/gca/index.php?id=14

http://maiscomporta.blogspot.com

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