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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Quando as viagens se faziam a vapor

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As embarcações tinham más condições, sofriam sucessivos atrasos e encalhavam com frequência devido ao assoreamento do rio. Um dia, a caldeira do "vapor" explodiu.

 

 

As carreiras regulares a vapor entre Alcácer do Sal e Setúbal duraram mais de meio século, com muitas interrupções no serviço, barcos a encalhar em pleno rio, múltiplas queixas e reclamações contra os horários e as comodidades. Houve acidentes, explosões e até um dia em que Alcácer se vestiu de luto porque todos já pensavam que se tinha dado um naufrágio.

Os trajetos começaram por volta de 1839, cerca de duas décadas após a estreia da navegação a vapor em Portugal. Na época, não existia alternativa por terra – porque a estrada vinha sendo sucessivamente adiada – o que obrigou o Estado a subsidiar a empresa que se disponibilizou a fazer a ligação fluvial. Sem o apoio governamental, corria-se o risco de não haver transporte, o que chegou a acontecer.

Era um jogo de forças: por um lado, a Regência não aceitava pagar mais, nem períodos longos, optando por prorrogar continuamente os contratos originais, de quatro anos. Por outro, as empresas de navegação alegavam que não podiam investir em barcos construídos de raiz e com melhores condições. Quem acabava por sofrer eram os passageiros de Alcácer, Grândola ou Santiago do Cacém, bem como os setubalenses com interesses no litoral alentejano.

Em 1876, talvez incentivada pelo recente contrato – mais duradouro e lucrativo -, a Hugh Parry & Son, há muito concessionária, lança à água um novo vapor em ferro e com rodas laterais destinado à viagem entre Alcácer e Setúbal. Esperava-se que reduzisse o trajeto para três horas e acomodasse senhoras e cavalheiros em aposentos diferentes.

O “luxo” durou pouco. O Hugh Parry foi comprado pelo Estado e rebatizado “Guiné”, para ir prestar serviço nessa ex-colónia. A partir de 1879, o Lucifer ficou a fazer o percurso, mas desconhece-se se foi a caldeira deste que, no final da Primavera de1883, explodiu com grande dano e aparato na doca de Setúbal, ferindo a tripulação e matando um dos seus elementos.PT-ADSTB-PSS-APAC-I-0005_m0005.jpg

O acidente provocou tal pavor que, em Alcácer, pouco tempo depois, se temeu uma “catástrofe” quando outra embarcação da carreira, tendo abalado de Setúbal às 6 horas de um dia, ainda não tinha alcançado o seu destino às 10 horas do dia seguinte.

Na então vila, muitas já se imaginavam viúvas, crianças órfãs e famílias sem amparo, adivinhando-se que o barco tinha “submergido e com ele todos os seus infelizes passageiros”. Devido a repetidas avarias, a chegada demorou dois dias.

Estes episódios originaram imensa polémica, com queixas ao rei, respostas nos jornais e debate político.

Talvez devido a tamanho sururu, nos anos seguintes o circuito é interrompido, não havendo empresas interessadas.

Após pressão solidária dos municípios, mas também do Corpo Comercial de Setúbal, faz-se novo concurso, para dez anos. As carreiras recomeçam em 10 de setembro de 1887, provisoriamente com a lancha a vapor Portimão e o concessionário Alfredo A. Alcobia.

As reclamações, essas, jamais cessaram.

 

 

À margem

O Estado português terá sido pioneiropassageiros Tejo 3.jpg no mundo – ou pelo menos na Europa - a encomendar um navio a vapor. O Conde de Palmela foi construído pela Fawcett, Littledale & Co. de Liverpool e, rumando a terras lusas, terá sido o primeiro do género a atravessar o golfo da Biscaia, numa viagem de mais de mil milhas, e também o primeiro a ser visto por estas paragens. Chegou a 14 de outubro de 1820 e destinava-se à carreira entre Lisboa e Santarém, que teve início em janeiro de 1821. Seria “sol de pouca dura”, porque o assoreamento do Tejo não permitiu as viagens previstas, ficando-se a viagem por Vila Franca de Xira.

Outras ideias que não vingaram foram os trajetos a vapor entre a Figueira da Foz e o Porto e entre esta cidade e Lisboa. Neste trajeto chegaram a fazer-se cinco atribuladas viagens logo no verão de 1821,

Mas isso é outra história...

 

 

 

Fontes:

Arquivo pessoal de Almeida Carvalho - PT/ADSTB/PSS/APAC, Arquivo Distrital de Setúbal - http://digitarq.adstb.arquivos.pt/details?id=1327529

 

http://www.marinha.pt/pt-pt/media-center/agenda/Paginas/Efemeride-Primeiro-Vapor-Portugues.aspx
Revista da Armada, N.º 216 / Dezembro 1989.
http://www.forumdefesa.com/forum/index.php?topic=2621.0
Documentos Apresentados às Cortes na Sessão Legislativa de 1887. Primeiro volume. Lisboa: Imprensa Nacional, 1887.

Biblioteca Nacional Digital - Diário Ilustrado, 8 jun. 1883

Biblioteca Nacional Digital - Diário Ilustrado, 5 jun. 1883

 

 

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal - PT/AHMALCS/CMALCS/FOTOGRAFIAS/01/0064

Arquivo Fotográfico de Lisboa

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/000441

2 comentários

  • Imagem de perfil

    CV 30.04.2018

    Agradeço mais uma vez o comentário. Sim, essa é outra história, muito interessante também, por sinal. Talvez um dia venha aqui parar...
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