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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Quando o “Boca do inferno” era juiz

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Um dos maiores poetas da lingua portuguesa foi representante do rei em Alcácer do Sal. Corria o século XVII e a Guerra da Restauração.

 

 

“Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro”

 

Seria fácil de imaginar que estas palavras fizessem parte de uma qualquer descrição atual de Alcácer do Sal ou de outra pequena cidade portuguesa, mas os versos que se transcrevem foram escritos há mais de 300 anos sobre a cidade de Salvador da Bahia, pela mão de Gregório de Matos Guerra, o maior poeta barroco brasileiro, grande nome da escrita em português, mas que ficou gravado na história também como o “Boca do inferno” ou “Boca de brasa”, pelos seus textos incendiários sobre as classes dominantes, em especial a igreja. Curioso mesmo é que esta tão importante figura, patrono da Academia Brasileira de Letras e reconhecido até hoje, inclusivamente com versos cantados por Maria Bethania e Caetano Veloso, tenha começado a sua vida como magistrado, precisamente em Alcácer do Sal.

Corria 1663. Tumultuoso ano da batalha do Ameixial, que repeliu as tropas espanholas na sua tentativa de alcançarem Alcácer para assim tomarem Lisboa. Foi neste contexto difícil da Guerra da Restauração que Gregório de Matos, chega a esta villa alentejana com apenas 27 anos. Nascido no Brasil, filho de pai vimaranense, vindo anos antes para estudar na metrópole, era já recém-formado em Coimbra e casado de fresco com D. Micaela Andrade,

Sabe-se que o jovem Gregório começou a sua vida literária ainda em Portugal, mas desconhece-se se terão sido as pacíficas paisagens alentejanas ou as vivências das gentes a inspirar os primeiros poemas satíricos, que terá escrito nessa época. Sabe-se, sim que foi Juiz de Fora e Juiz dos Órfãos em Alcácer do Sal, querendo isto dizer que era o representante do Rei no concelho, zelando localmente pelo poder da “coroa”. Tinha mais poder que o juiz ordinário e cabia-lhe também assegurar a boa gestão dos bens dos órfãos por parte dos seus curadores e tutores.

Este magistrado, que tinha obrigatoriamente de ser exterior ao concelho para usufruir de maior autonomia e imparcialidade, assumia muitas vezes funções políticas, ajudando o Estado a controlar a vida dos municípios, nomeadamente como presidentes de câmara. Ignoro se assim foi com Gregório de Matos Guerra por terras alcacerenses, mas há notícia de ter assumido o importante cargo de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do Sal, para um mandato entre 1665 e 1666.

Deve ter-se dado bem por cá, habituado que estava ao calor sul-americano, mas não se demorou pelo Alentejo: dois anos mais tarde, surge como representante da Bahia nas Cortes, em Lisboa. É nomeado para outros cargos públicos e regressa ao Brasil, em 1683, já viúvo e investido em ordens menores, numa incursão na carreira eclesiástica que lhe vai trazer muitos dissabores. Reconhecido até aqui como magistrado relevante, inclusivamente com sentenças exemplares publicadas em livro, acaba por ser destituído da igreja, alegadamente por se recusar a usar batina e não cumprir outras regras da função.

É aqui que parece dar-se uma viragem que vai fazer de Gregório de Matos um temível cronista dos costumes da época, criticando de forma desbragada os defeitos da sociedade e dos governantes de então. Os seus textos, satíricos uns, até eróticos outros, mordazes todos, suscitaram denúncias à Inquisição e acabaram com a sua deportação para Angola. Morreria de uma doença aí contraída, já de regresso ao Brasil, onde, à cautela e a julgar pelos seus escritos devotos do fim da vida, parece ter-se reconciliado com Deus:

“…Quem do mundo a mortal loucura... cura,
A vontade de Deus sagrada... agrada
Firmar-lhe a vida em atadura... dura…”

Canta maria Bethânia pela mão do afamado poeta seiscentista, que caminhou pelas ruas de Alcácer do Sal durante quatro anos.

 

À margem

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Triste Bahia; Pequei Senhor; Pica-flor; Que falta nesta cidade; Marinícolas; Neste mundo é mais rico quem mais rapa, Sete anos a nobreza da Bahia e  O todo sem a parte não é todo, são alguns dos poemas mais conhecidos de Gregório de Matos Guerra. Um dos principais alvos da sua sátira era António Luís Coutinho da Câmara, governador do Brasil e, depois, Governador-Geral da Índia,

Mas isso são outras histórias…

 

 

 

 

 

 

 

 

Fontes

Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal

PT/AHMALCS/CMALCS/BFS/10/02/018

http://www.academia.org.br/academicos/gregorio-de-matos/biografia

https://pt.slideshare.net/danieleonodera/gregrio-de-matos-guerra

https://pt.wikipedia.org/wiki/Greg%C3%B3rio_de_Matos

https://www.ebiografia.com/gregorio_matos/ 

 https://www.geni.com/people/Ant%C3%B3nio-Lu%C3%ADs-Coutinho-da-C%C3%A2mara-governador-do-Brasil-vice-rei-da-%C3%8Dndia/6000000005006597036

 

 

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