Quando o fenómeno “extraordinário e medonho” arrasou toda uma região
A tempestade, que ficou conhecida como “cheia de Marrocos”, pulverizou edifícios, árvores e vinhas, causando o pavor entre as gentes. Os rios Corgo, Pinhão e Douro galgaram as margens com uma fúria inigualável.
Muito tempo antes das tempestades em Portugal serem batizadas com nome de mulher, a região do Porto viu passar um fenómeno “extraordinário e medonho”, que deixou um rasto de morte e desolação só possível de perceber pelos testemunhos que chegaram à atualidade. Em apenas dois dias, “vulcões” de terra, chuva e vento levaram pelos ares edifícios e embarcações, enquanto gigantescas “bolhas de água” rebentavam, arruinando tudo à sua volta. Rios galgaram as margens, arrastando o que encontraram pelo caminho e destruindo navios, cais e o mais que existia nas margens. Foi a 10 e 11 janeiro de 1821.
"De repente, ecoou um trovão medonho e uma densa nuvem se alongou sobre a Quinta de Marrocos, escavando-a com tal força que casas, socalcos, árvores, fragas descomunais e gente, tudo foi impelido com ruído e violência e cortou a corrente do rio de uma a outra margem”. Tal prodígio ficaria conhecido para a meteorologia como “cheia de Marrocos”.
O relato é de Luiz Teixeira, em carta à patroa, D. Maria Rita de Sampayo da Cunha e Castro, da Casa Bandeirinha. Dado como morto, o caseiro apressou-se a desmentir o boato e descreveu o que viu e ouviu como um “estrondo horroroso”, que precedeu uma “extraordinária porção de terra” e de água, elevando-se “a grande altura”, fazendo depois um “profundo buraco” e mais três em outras quintas próximas, igualmente afetadas. O portento “levou” a adega, os vinhos, lagares, casas, todas as árvores e a vinha, “não restando o mais pequeno vestígio de haver” existido ali edifício algum.
O caso é noticiado no Correio do Porto, referindo-se, danos em diferentes propriedades e a morte de muita gente, afogada nas torrentes do Pinhão e do Corgo.
Como seria de esperar, o Douro não se fez rogado e também galgou as margens com “grande fúria e violência”. Desta vez, quem conta o que aconteceu é um enigmático J.B.G., do Porto, em missiva a um seu amigo de Lisboa.
“Todos os navios que se achavam surtos neste rio estiveram em iminente perigo de se perderem”, diz, esclarecendo que pelo menos seis tiveram um “desgraçado fim”. Na funesta lista estão os bergantins ingleses Fair-Hibernian e Mathilda, ambos já carregados com vinho para zarparem, que forram arrastados pela corrente, despedaçando-se. O mesmo aconteceu à galeota alemã Anna-Margaretha, aos hyates portugueses Senhor da Pauta e Triunfo da Inveja; ao espanhol San Josef el Vencedor, a inúmeros botes, lanchas e barcas.
Diz que “a enchente foi muito grossa e subiu a grande altura”, comunicando “da porta da Ribeira com o postigo da Lingueta; e do postigo dos Banhos com a porta Nobre”, afetando por isso muitas pessoas e edifícios: a casa do despacho do Cais da Alfândega “veio a terra”, porque um bergantim inglês encalhou sobre ela; o cais novo de Sobreiras e outros aluíram e, em Vila Nova de Gaia, “houve grande perda de vinhos”.
Esta narrativa acrescenta dois pormenores interessantes. Dá conta que os navios que escaparam registaram tal dano nos seus cordames, que “os cordoeiros venderam toda a obra que tinham pronta deste género” e que era muita, que há muito estava empatada devido “à apatia” em que o comércio se achava.
Revela igualmente que foi por toda esta sequência de desgraças que os deputados à assembleia constituinte provenientes da região ainda não tinham chegado à Capital, atrasando-se, assim, para a importante sessão das Cortes, que daria origem ao primeiro texto constitucional português.
À margem
Muitas vezes galgou o Douro as margens, com isso causando volumosos danos e o desespero de quem vive ou trabalha à mercê da sua força. As cheias de 1739, 1779, 1860 e 1909 são apontadas como das mais severas. De facto, nas vésperas de natal de 1909, as águas chegaram a cerca de 80 cm do tabuleiro inferior da Ponte D. Luís I; muitos barcos se perderam com sua carga e numerosos edifícios foram afetados, com elevados prejuízos para os moradores.
E, quando já se pensava que a construção de barragens prevenia que algo assim se repetisse, eis que, em janeiro de 1962, a cheia atinge uns extraordinários 4,5 metros de altura ao nível dos cais da Ribeira, Terreiro e Gaia.
Apesar dos alertas e das medidas de precaução, houve embarcações que se afundaram ou garraram barra fora.
Recusando acatar as ordens das autoridades para abandonar o seu navio, João Saragoza, capitão do Puerto Alicante, permaneceu a bordo. Quando finalmente mudou de ideias, goradas que foram as tentativas de o resgatar, atirou-se ao rio com o intuito de alcançar terra a nado. Já foi tarde.
Mas isso é outra história…
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Para conhecer a história de outro naufrágio, mas no Tejo, veja aqui.
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As imagens 1 a 4 são meramente indicadoras, não correspondendo aos fenómenos narrados.
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Fontes
Arquivo Histórico Municipal de Alcácer do Sal
PT/AHMALCS/CMALCS/EXTERNO/01/06/001
Diário do Governo nº1 - nº78
Notícias de Catástrofes no Douro – Uma leitura geográfica da dinâmica do meio físico, de Carlos Bateira; Ângela Seixas; Susana Da Silva Pereira, Projeto TERRISC; Departamento de Geografia da Universidade de Letras do Porto, 2004, disponível em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/9688.pdf
Geologia Ambiental, de José Alveirinho Dias, disponível em:
http://w3.ualg.pt/~jdias/GEOLAMB/GAn_Casos/Douro1909/Douro%201909.html
A Cheia de 1962, de Germano Silva, disponível em:
https://recursos.portoeditora.pt/recurso?id=9487587
Imagens
Gravura séc. XVIII "Vernet" tempestade
Tempestade no mar, (xilogravura) desenhada por Th. Weber, gravada por J. Gauchard. 1881
https://www.gravuras-antigas.com/product_info.php?products_id=13237
tempestade no mar 2
http://www.espiritbook.com.br/profiles/blogs/p-ssima-imagem-e-energia-quadro-de-tempestade
Arquivo Municipal do Porto
1909
Editor: Tabacaria Cubana
D-PST/1387
D-PST/3064
Editor: Tabacaria Vareirense
D-PST/2597
1962
Fotografia de Teófilo Rego.
F-P/CMP/10/391(3)