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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Quando Portugal abriu fogo contra os americanos

torre de belem disparando.png

A Guerra Civil Americana estava a dois meses do seu desfecho quando uma nação neutral ousou disparar contra um navio da União, criando um conflito diplomático que podia ter acabado mesmo muito mal. Resolveu-se com o rolar de umas cabeças e uma certa humilhação do país agressor: Portugal... E, o pior, é que o até tínhamos boas e legais razões para disparar!

Foi do nosso pacífico país, nem mais nem menos, que partiram os únicos disparos estrangeiros contra um navio norte-americano durante a Guerra Civil Americana, conflito que opôs os Unionistas, do Norte, e os Confederados, estados esclavagistas, do Sul. Tudo aconteceu no dia 28 de março de 1865.

Cerca das 10 horas dessa manhã, o couraçado da Confederação, CSS Stonewall, zarpou do porto de Lisboa em direção ao alto-mar. Tinha ali permanecido apenas dois dias, para se abastecer de carvão.

stonewall.png

Atracados nas proximidades estavam o Niagara e a chalupa Sacramento, ambos também navios de guerra, mas da União, que tinham vindo no encalço do navio inimigo. Pouco depois daquele ter abalado, o Niagara levantou ferro e começou a navegar.

Ao ver este movimento suspeito, o oficial de comando na Torre de Belém disparou contra ele vários tiros de canhão. Não satisfeito, repetiu os disparos, até ver a bandeira arreada, em sinal de rendição.

Ora, o militar português estava a obedecer às normas internacionais que definiam que, nos portos neutrais, como o nosso, se deveria aguardar 24 horas após a partida de um navio beligerante antes que outro navio de força contrária pudesse partir. Evitavam-se assim batalhas navais em águas desses estados que não queriam tomar partido. Os navios também não se deviam demorar nestes embarcadouros, acoitando-se aí e, por isso, o Stonewall havia sido instado a permanecer apenas o indispensável no Tejo.

Era a chamada regra das 24 horas, que foi por diversas vezes desrespeitada em outros portos neutrais, mas que o militar responsável da Torre de Belém não podia aceitar que fosse ignorada durante o seu turno

ThomasTCravenPortrait.jpg

As duas salvas de tiros dos nossos canhões provocaram danos – uma das fontes consultadas refere um morto, embora essa baixa não seja referida noutras – atingindo, nomeadamente, a chaminé da fragata a vapor Niagara.

Tal ataque, enfureceu o comandante deste navio norte-americano, que alegou não querer partir, mas tão só mudar de posição, aproximando-se de Lisboa. Assegurou também que desceu o estandarte ao primeiro aviso.

Thomas Craven, assim se chamava o Comodoro* comandante do USS Niagara, entendeu a segunda salva de disparos como uma ignóbil ofensa ao seu país, uma afronta inaceitável, praticamente uma declaração de guerra.

Nos dias que se seguiram a esta ocorrência, entraram em campo os políticos e o assunto só azedou. Tanto Thomas Craven, como o ministro** norte-americano em Lisboa, James E. Harvey, exigiram uma retratação oficial e inequívoca do “erro” cometido. Para apaziguar tão importante aliado e impedir uma escalada do conflito, Portugal não teve outro remédio que não fosse pedir desculpa e encontrar bodes expiatórios.

Assim, o comandante da Torre de Belém foi exonerado, o governador daquele forte substituído e dali foi disparada uma salva de 21 tiros em homenagem à bandeira norte-americana ali mesmo içada, enquanto Thomas Craven observava da amurada do seu navio. Somou-se uma reposição dos estragos causados.

Vergamo-nos, assim, perante uma nação “amiga” e, sobretudo, mais forte, sem que se saiba, até hoje, se, de facto, houve erro ou precipitação da nossa parte.

Para tranquilizar o orgulho ferido por esta humilhação com 160 anos, resta-nos o conforto de saber o Comodoro Craven, que tão ofendido ficou com a nossa reação à sua manobra, foi julgado em tribunal marcial porque deveria ter atacado o Stonewall perto de Ferrol (Espanha), quando aquele estava ao seu alcance, mas a sua inação fez com que aquele navio, com uma história própria bastante curiosa (ver À margem), acabasse por se perder.

A notícia do ataque português correu mundo e teve ecos do outro lado do oceano. Por cá até se compôs um fado que rezava assim:

Portugal está obrigado

A pagar perdas e danos

Que a Torre de Belém causou

Aos barcos americanos

 

À margem

CSS_Stonewall_1.jpg

O Stonewall foi construído às escondidas no estaleiro de Bordéus do senhor Jean-Lucien Arman, simpatizante da causa dos confederados e, acima de tudo, um homem de negócios, disposto a trabalhar para quem lhe pagasse. A encomenda de um conjunto de navios para reforçar a muito depauperada armada da Confederação acabaria por ser descoberta pelo embaixador norte-americano em Paris e o negócio teve de ser desfeito. De pouco adiantou que tivessem fingido que as embarcações tinham o Egito como destino.

Face a este desaire, dono do estaleiro viu-se a braços com navios que não podia entregar. Tentou e conseguiu vendê-los aos dinamarqueses, que se tinham envolvido num conflito europeu, mas quando foram entregues, não agradaram e esta guerra de curta duração já tinha terminado.

Stonewall em 1865.jpg

Jean-Lucien Arman não desarmou e voltou ao plano inicial, congeminando como fazer chegar o navio aos confederados, que estavam destinadas a ser seus donos desde o início.

Assim, o Sphinx (Esfinge), que depois foi Staerkodder (?) e se chamaria Stonewall mudou novamente de bandeira e de nome, numa operação secreta que teve lugar na madrugada do dia 24 de janeiro de 1865, numa breve escala na ilha francesa de Houat, passando a estar às ordens do experiente comandante Thomas Jefferson Page. Antes de chegar a Lisboa, a 27 e março, ainda parou em Ferrol, onde se deu uma espécie de jogo do gato e do rato com o Niagara e o Sacramento, ambos sob o comando do nosso já conhecido Thomas Craven.

Depois de zarpar de Lisboa, alheio ao conflito entre a Torre de Belém e o seu perseguidor, rumou às américas.

Mas, quando finalmente chegou a Havana, em maio, a guerra civil norte-americana já tinha terminado.

Thomas_Jefferson_Page.jpg

Para não perder tudo, o capitão Page vendeu o Stonewall ao Capitão-General de Cuba por uma maquia que lhe permitiu comprar um rancho, na Argentina.

Quanto ao couraçado, voltou mais tarde para mãos norte-americanas e esteve sem uso durante três anos. Em 1869 foi comprado pela Marinha Imperial Japonesa, ao serviço da qual se manteve até 1888, sob o nome: Kotetsu. Ainda seria rebatizado uma vez mais. Quando foi desmantelado, em 1908, chamava-se Azuma.

Se o Stonewall tem uma história curiosa, o que dizer de James E. Harvey, o embaixador norte-americano em Lisboa, antigo jornalista e grande obreiro da comunicação que deu a vitória a Lincoln. Tentou todos os truques de negociação e diplomacia para evitar a guerra, chegando até a ser acusado de traição pelo próprio partido.

Mas isso é outra história

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*Comodoro é uma patente da Marinha, posto de oficial-general, superior ao de capitão-de-mar-e-guerra e inferior ao de contra-almirante.

**Ministro é o equivalente ao atual cargo de embaixador.

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Nota: A Guerra Civil Americana, também chamada Guerra da Secessão, decorreu entre 12 de abril de 1861 e 26 de maio de 1865. Opunha um conjunto de estados do Sul, que formaram a Confederação e se separaram dos restantes, do Norte: a União. Na base deste afastamento estava a intenção de manter a escravatura, algo que estaria ameaçado com a eleição do presidente Abraham Lincoln, assumidamente abolicionista. A escravatura foi de facto abolida, ainda durante a guerra, que a União venceu, mas Lincoln foi assassinado pouco antes desse desfecho, a 15 de abril.  

 

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Fontes

Lee Kennett, The Strange Career of the Stonewall, 02.1968. Disponível aqui:

The Strange Career of the Stonewall | Proceedings - February 1968 Vol. 94/2/780

 Juan Manuel Pérez, Especialista de Referência, Hispanic Division, Blog da Livraria do Congresso Norte-Americano, 14.06.2019: Under Six Flags: The Curious Career of the CSS Stonewall | 4 Corners of the World

Larry G. Parker, Under Six Flags: The Intriguing Saga of the CSS Stonewall. The Confederate Ironclad that Helped Forge an Empire, Militaru History Online, Under Six Flags: The Intriguing Saga of the CSS Stonewall

Naval War College Archives, Thomas Craven court-martial document, 1865 Nov 7, File — Box 4: [Barcode: TRF107625449], Folder: 20, MSC-364- File MSI 043. Disponível aqui: Niagara (Frigate) | U.S. Naval War College Archives

Neil P. Chatelain, When Portugal Bombarded a U.S. Warship to Protect a Confederate Ironclad!, 01.17. 2024. Aqui: Emerging Civil War

James Harvey, Musselman Library’s Special Collections and College Archives Catalog, Gettysburg College, CWVFM-038: Letter from James E. Harvey at Washington, D.C, to L.I. Cist, Esq., at St. Louis, Mo., March 25, 1868. Aqui: Harvey, James, 1817-1893 | Musselman Library’s Special Collections and College Archives Catalog

DANIEL  W.  CROFTS,         James  E.  Harvey  and the Secession  Crisis, Trenton  State  College, Penn State University Aqui:    View of James E. Harvey and the Secession Crisis

https://journals.psu.edu 

Harper's Weekly. A Journal of Civilization / Volume IX, Issue 437, 13 maio 1865. Disponível aqui: University of Michigan Library

The New York Times: FOUR DAYS LATER FROM EUROPE.; Arrival of the New-York at this Port and the Moravian at Portland. The Rebel Ram Stonewall Ordered To Leave Lisbon. The Niagara and Sacramento Ordered to Remain in Port. They Attempt to Leave and are Fired On... The Niagara Struck and One Man Killed. Five-Twenties Advanced Three Per Cent. THE DISHONORED REBEL DRAFTS PAID, INTERESTING CONTINENTAL NEWS. AMERICAN TOPICS. THE REBEL RAM STONEWALL COMMERCIAL BEARINGS OF THE WAR. THE STOCK OF COTTON. OUR BONDS IN FRANKFORT. MISELLANEOUS - The New York Times

Pinto de Carvalho (Tinop), História do Fado, Lisboa, Livraria Moderna-Editora, 1903, edição fac-simile, A Bela e o Monstro – Rapsódia Final, Coprodução Museu do Fado no âmbito do Plano de Salvaguarda da UNESCO, 2016,

A Torre de Belém e a Guerra Civil Americana - Paixão por Lisboa

 

Imagens:

Gravura da guarnição da Torre de Belém a abrir fogo contra um navio americano da União. 1865. : r/portugal

Harper's Weekly. A Journal of Civilization / Volume IX, Issue 437, 13 maio 1865. Disponível aqui: University of Michigan Library

Thomas Tingey Craven (admiral, born 1808) - Wikipedia

Thomas Jefferson Page - Thomas Jefferson Page - Wikipedia

Naval Encyclopedia: CSS Stonewall/Kōtetsu/Azuma (1864)

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