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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Todas as peripécias da visita de Eduardo VII a Portugal

 

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Os convidados ingleses tinham whisky e chá à discrição nos seus aposentos. Só mesmo assim poderiam aguentar os curiosos hábitos deste estranho povo do sul da Europa.

 

A primeira deslocação de Eduardo VII ao estrangeiro teve como destino Portugal. Corria o ano de 1903 e, a par da versão formal dos acontecimentos, como sempre acontece, há o relato oficioso daquela viagem que teve uma organização-relâmpago e até ignorada pela corte britânica, incluindo a rainha Alexandra, quando já se cochichava por Lisboa inteira. Esta é a versão light da visita do homem em honra do qual se batizou o grande parque do centro de Lisboa.

Bertie, como era conhecido entre a família próxima, viajava para Portugal com o intuito de distrair as atenções de outras incursões bem mais complexas do ponto de vista da política externa que pretendia efetuar, a França e à Alemanha. Depois de alguma hesitação, tratou tudo com o maior sigilo, mas assim que a notícia chegou à capital portuguesa, passou ao domínio público, o que muito irritou o monarca, bisavô da atual rainha de Inglaterra,

0013_Meduardo vii.jpgAinda assim, o yacht Victória and Albert, em que se fez transportar, deu entrada no Tejo a 2 de abril, cerca de um mês após a decisão tomada. Uma rapidez totalmente impensável nos dias que correm.

Poderia aqui falar da parada militar que, na Praça do Comércio, recebeu o rei; das visitas de comboio a Cascais e Sintra; da receção de que foi alvo na Sociedade de Geografia de Lisboa; do fogo-de-artifício ou da iluminação da margem sul; da inauguração do Club Inglês; da récita no S. Carlos; da sessão de tiro aos pombos, na Tapada da Ajuda ou da tourada que em sua homenagem se organizou, no Campo Pequeno…

 

 

Poderia, mas não é do relato oficial que trataremos.

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Para começar, a visita suscitou uma verdadeira agitação social, com provincianos a desembarcar aos magotes, vindos de outros pontos do país para ver os festejos, o que foi coadjuvado pela redução nas tarifas ferroviárias e pelo facto de ter sido decretado feriado.

É assim, que as elaboradas toiletes das senhoras da alta sociedade, os fatos completos e as fardas militares de muitos cavalheiros, conviveram com numerosos maltrapilhos, mulheres de lenço na cabeça, carregadas com cestas e sacas, bem como crianças de pé descalço, que provavelmente aproveitaram as seis mil senhas de refeição nas cozinhas económicas, gratuitamente distribuídas pela ocasião.

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Na Praça do Comercio, onde a imponente estátua de D. José I foi ofuscada por um improvisado embora grandioso pavilhão, a revista às tropas foi feita a pé, porque Bertie, tão ou mais roliço que o primo Carlos, não sentia segurança em montar a sua muito robusta pessoa em equídeos que não conhecia. Lado a lado, os dois monarcas desfilaram, parecendo que os botões das suas vestes rebentariam a qualquer momento, não resistindo à pressão dos seus rotundos ventres.

 

A afluência foi tal que, na véspera da chegada, o Diário de Notícias publicava, não dez, não vinte, mas 115 anúncios para aluguer de janelas em casas que ficavam no percurso planeado para a comitiva.

No Chiado houve mirones que pagaram o “preço fabuloso” de 100 mil reis e no topo do elevador do Carmo (Santa Justa) foram colocadas umas muito disputadas e caras cadeiras.

 

Não admira também que se tivesse esperado pela véspera para fazer aquela oferta, uma vez que o trajeto foi alterado muitas vezes, em especial porque os ilustres seriam conduzidos em seis estupendos coches, “restos da nossa antiga opulência”, os quais, tal como as galeotas* que transportaram os visitantes até terra, foram muito apreciados pelos ingleses, mas constituíam um verdadeiro problema, ora por serem muito antigos e ameaçarem desintegrar-se ao menor solavanco, ora porque tinham dificuldades nas curvas apertadas e trechos inclinados.

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Um dos cavalos atrelados caiu para o lado e morreu durante o passeio: foi a sua forma de protestar contra os ingleses, ironizou Ramalho Ortigão.

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O tio da Europa, como também era conhecido Eduardo, por ser aparentado com todas as casas reais do continente, ficou alojado no palácio das Necessidades, em aposentos habitualmente ocupados pelo rei português, que assim se viu momentaneamente despejado.  

Foi providenciado que os ingleses tivessem, sem reservas, whisky e soda, de noite, e chá, pela manhã.

Isto deve ter sido essencial para aguentar de bom ânimo a tourada à antiga Portuguesa, extraordinariamente realizada durante a Semana Santa, perante o escândalo dos mais devotos e o horror de alguns britânicos, que acharam aquele um costume absolutamente bárbaro.

E o que dizer da mítica condução do Infante D. Afonso, que brindou os visitantes com alguns momentos completamente desenfreados no trajeto entre Cascais e a Boca do Inferno?...Só mesmo um trago de whisky ao deitar para acalmar tanta excitação.

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No final da visita, o hino inglês já seria mais conhecido do que o lusitano, tantas foram as versões ouvidas e trauteadas, desde coros de freiras e casapianos, às copiosas interpretações instrumentais de que foi alvo o God save the King.

 

Certo também é que, durante estes poucos dias, a luta política de certa forma abrandou e D. Carlos foi um pouco poupado ao habitual festim de críticas.

Ainda que as memórias se mantivessem frescas quanto ao acabrunhante ultimato britânico que gorou as pretensões coloniais portuguesas expressas no mapa cor-de-rosa, a visita foi um êxito e todos, mesmo os detratores do rei de Portugal, queriam ver e ser vistos em toda a animação vivida naquele longínquo mês de abril de 1903.

 

 

À margem

 

Apesar de todas as peripécias, a visita correu de feição e, como é hábito nestas circunstâncias, D. Carlos tentou mostrar o melhor que o País tinha para oferecer, nomeadamente alguma modernidade. No Museu de Belas-Artes – hoje Museu Nacional de Arte Antiga  – de onde os importantes convidados assistiram ao fogo de artifício no Tejo -  a sala onde foi degustado um magnífico bufete da Casa Ferrari, serviu para expor os “novos” artistas nacionais, como Columbano, Malhôa, Condeixa, Luciano Freire e o escultor Teixeira Lopes. No mesmo palácio, aliás, já em 1882 se havia inaugurado uma exposição a propósito da visita de monarcas estrangeiros, nesse caso eram os reis de Espanha e dava-se a conhecer uma retrospetiva de arte ornamental ibérica. De resto, também Eduardo VII não era um estreante em terras lusas, pois já por aqui tinha passado, em 1876, no regresso da Índia, quando era ainda príncipe de Gales e as suas aventuras amorosas nos bordéis parisienses escandalizavam o velho continente.

Mas isso é outra história…

................

*Já falei das galeotas reais e os seus remadores algarves aqui.

**Já falei das formalidades - e hipocrisias - da Semana Santa, aqui

 

Fontes

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/

Hemeroteca Digital de Lisboa

O Occidente – Revista illustrada de Portugal e do Estrangeiro

26º ano, XXVI Volume, nº 873 – 30 mar. 1903

26º ano, XXVI Volume, nº 874– 10 abr. 1903

26º ano, XXVI Volume, nº 875 – 20 mar. 1903

26º ano, XXVI Volume, nº 876 – 30 abr. 1903

 

Marquês de Soveral, seu tempo e seu modo, de Paulo Lowndes Marques, Texto Editora, 2009, disponível em

https://books.google.pt/books?id=NuqZ7T2vWKcC&pg=PA176&lpg=PA176&dq=bergantins+remadores+algarves&source=bl&ots=jebo-2QBtf&sig=Z_mXiB9dl-uFI7gOfaJrpo_JKRQ&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwi4oIjbqvTZAhUF1hQKHWgCBmo4ChDoAQgmMAA#v=onepage&q=bergantins%20remadores%20algarves&f=false

 

Imagens

Arquivo Fotografico Municipal de Lisboa

http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/pt/

 

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/000307

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/000313

PT/AMLSB/ORI/000068

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LSM/000030

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/LSM/000086

 

Augusto Bobone

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BOB/000002

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BOB/000074

PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/BOB/000312

 

 

 

 

2 comentários

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    Anónimo 28.07.2018

    Olá, ainda bem que gostou. Por acaso, foi a partir da história das janelas, que encontrei quando andava à procura de outra informação, que surgiu depois este post.
    Tem razão, o senhor era Alberto (Bertie) - como o pai - Eduardo.
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