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O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

O sal da história

Crónicas da história. Aventuras, curiosidades, insólitos, ligações improváveis... Heróis, vilões, vítimas e cidadãos comuns, aqui transformados em protagonistas de outros tempos.

Um maio de 68 a caminho de África

 

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O navio transportava jovens militares como gado, empilhados, rumo a um continente desconhecido e a uma guerra que os marcaria para sempre. Lá fora, os estudantes tinham saído à rua exigindo uma mudança.

Maio de 1968. Paris está a ferro e fogo, com os estudantes nas ruas, desafiando a autoridade política e social e, sobretudo, os poderes tradicionais. Por cá, Salazar ainda governa - por pouco - mas vê surgirem as primeiras contestações à guerra que, em África, consumia toda uma geração. Alheia a tudo isto, no dia 18, uma multidão de mancebos acorre ao cais de Alcântara e embarca no paquete Niassa rumo ao desconhecido. As condições que encontraram a bordo para uma viagem tão longa não podiam ser mais elucidativas do que os esperava.

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Durante três semanas – que não contavam para a “contabilidade” da tropa - os jovens entretinham-se com o que havia, sobretudo jogavam à batota, por vezes até de madrugada, com as cartas a circular de mão em mão.

Era uma atividade formalmente não aceite, mas tolerada pelos superiores, embora pudesse ser motivo de conflito por parte dos maus perdedores – e alguns perderam muito - e permitisse lucro fácil aos mais afortunados, que amealharam dinheiro e objetos: máquinas fotográficas, relógios…tudo servia para pagar dívidas e esquecer o local onde estavam e o que ali os trazia.

Nessa viagem, a par de tantos rapazes anónimos vindos de todo o País, seguia o cantor Edmundo Falé, que contribuiu para alguns momentos de alegria e descontração, ao oferecer aos seus camaradas de armas um “concerto” em pleno oceano.

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Os dormitórios, por outro lado, apresentavam um panorama bem menos suscetível de merecer aplausos: consistiam numa estrutura metálica que ocupava as entranhas do navio e se estendia por vários andares, separados por um pavimento em tábuas de madeira, sem forro ou outra qualquer proteção isolante.

partida de tropas a bordo do niassa2 .PNG

 

A algazarra era, por vezes, infernal e, nas compridas noites oceânicas, à falta de melhor local, os militares urinavam ali mesmo, “brindando” os seus companheiros  dos patamares inferiores com uma desagradável chuva noturna que chegava a percorrer os três pisos improvisados onde dormiam mais de dois mil homens.

A sorte e o destino geográfico que lhes estava atribuído pelas forças armadas ditavam quem ficava em cima e quem devia resignar-se a ficar por debaixo.

Obedecidas as rotinas obrigatórias, os dias eram passados preferencialmente no convés, onde também se tomavam as refeições. Era espaço mais arejado, mas também sujeito ao sol inclemente e à chuva, que marcou alguns dias da viagem. Quando assim era, não havia lugar para estar ou comer e não foram raras as ocasiões em que o almoço era tomado na casa de banho, entre a vontade de matar a fome e a náusea dos cheiros envolventes.

“O gado hoje viaja em melhores condições que as que nós tivemos para ir servir a pátria no Ultramar,  a  bordo do Niassa”, conta quem assim viajou entre Lisboa e Lourenço Marques, rumo a uma guerra que mal se compreendia, deixando mãe sozinha, namorada e emprego fixo na metrópole.

Tudo em espera por dois anos, na melhor das hipóteses.

E esses eram os venturosos, porque o pior cenário era o regresso do soldadinho numa caixa de pinho, como cantou Zeca Afonso.

 

À margem…

 

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O “Maio de 68”, que teve a sua expressão maior em França e réplicas em todo o mundo, começou por ser um movimento de protesto estudantil que teve pouco impacto em Portugal.  No nosso País, embora a contestação académica fosse sempre latente, na mesma década, bem mais significativas do ponto de vista público, foram as “crises” de 1962, em Lisboa, e de 1969, em Coimbra.

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Houve greve às aulas, luto académico; confrontos, detenções, expulsões e ondas de choque que se prolongaram. Envolvidos estiveram alguns nomes que, anos mais tarde, veríamos sentar-se nas cadeiras do poder, na Assembleia da República ou mesmo em executivos governamentais. Mas, os estudantes universitários eram, à época, uma elite. A multidão sem nome continuou a embarcar para a guerra colonial, mesmo depois da morte de Salazar, mesmo depois da “primavera marcelista”, até que, a 25 de abril de 1974, um grupo de militares fez cair o regime e, ainda que de forma atabalhoada, acabou com a guerra colonial, 13 anos depois do seu início. Quanto ao Niassa, serviria até 1978, mas seria alvo de um atentado bombista, quando se preparava para levar mais um contingente de tropas, em 1970.

Mas isso é outra história…

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Já aqui antes contei outro testemunho sobre a guerra colonial em:  O iminente naufrágio do Vera Cruz com milhares de tropas a bordo

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Fontes

O relato da viagem é do militar Joaquim Fernando Martins, meu querido pai, que teve mais sorte do que a maioria, cumprindo uma tropa africana longa, mas calma, na farmácia militar, na avenida General Bettencourt, em Lourenço Marques, Moçambique.

Visão História – Estudantes contra o poder, nº 52; abril 2019

EDMUNDO FALÉ (tripod.com)

Ephemera Diário: Ida e volta na guerra (ementas do "Vera Cruz" em 1968 e do "Niassa" em 1970) | TVI24 (iol.pt)

Imagens

embarques.jpg (1049×1054) (googleusercontent.com)

Centro de Documentação 25 de Abril | Universidade de Coimbra (uc.pt)

Chegada ao Tejo do Navio “Niassa” – RTP Arquivos

Maio de 68. Estudantes contra polícias e no fim ganhou o capitalismo – Observador

A Crise Estudantil de 1969 e a final da Taça :: :: zerozero.pt

 

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